Título: Virgílio derrota Vanessa e Lula em Manaus
Autor: Krakovics, Fernanda
Fonte: O Globo, 29/10/2012, País, p. 17
Tucano vai à forra e consegue ser eleito com votação consagradora; candidatura não era aposta do PSDB.
A alegria do ex-presidente Lula e da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) por terem derrotado, em 2010, o ex-líder do PSDB Arthur Virgílio (AM), na disputa pelo Senado, durou dois anos. Ontem o tucano foi à forra e se elegeu prefeito de Manaus, em uma votação consagradora, com 65,95% dos votos válidos. A comunista somou 34,05%, mesmo tendo contado com a presença de Lula e da presidente Dilma Rousseff em seu palanque.
- Espero que (minha eleição) represente que a cidade de Manaus é independente, acima de caciquismo, de mandonismo. A cidade está mostrando todo seu toque de rebeldia - disse Virgílio, ao votar pela manhã.
Em sua primeira entrevista depois de eleito, o tucano agradeceu a votação e afirmou que, apesar de ser da oposição, vai procurar a presidente para tirar projetos do papel. Anunciou uma reforma administrativa para o enxugamento da máquina e uma auditoria nos contratos da prefeitura:
- Vou procurar a presidente Dilma para fazer parcerias, sem palanques. Ela (Vanessa) tinha o dela, eu tinha o nosso. Aqui ganhou o nosso. As decisões de Manaus são tomadas pelo povo de Manaus. É lição que todos devem humildemente aprender. Enfrentamos forças poderosas e vencemos.
Já a senadora Vanessa afirmou que não se sente derrotada:
- Não me sinto derrotada de jeito nenhum. Recebi o resultado com muita serenidade - disse a comunista que, pela manhã, em um discurso derrotista, citou Fernando Pessoa ao votar. - Foi uma campanha muito suja, feita no apagar das luzes. Quero agradecer às pessoas, independente do resultado. Como diz Fernando Pessoa, tudo vale a pena se a alma não é pequena.
A campanha em Manaus foi marcada por panfletos apócrifos dos dois lados, mas a reta final foi dominada por folhetos contra o tucano.
Tucano procurou passar serenidade
Mais uma vez, vencer o ex-líder do PSDB era uma questão pessoal para Lula. O tucano fez, no Senado,uma oposição ferrenha a seus dois governos, onde foi um dos articuladores da derrubada da CMPF, o chamado imposto do cheque. Outro episódio marcante foi quando Virgílio ameaçou, na tribuna do Senado, dar uma "surra" no então presidente da República. O ex-senador é praticante de jiu-jitsu.
Virgílio, que foi líder do governo Fernando Henrique Cardoso na Câmara dos Deputados e ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República antes de conquistar um mandato de senador no início dos anos 2000, passou a campanha tentando controlar seu temperamento explosivo e passar uma imagem de serenidade.
Enquanto isso, a candidata do PCdoB ressaltava esse traço da personalidade do adversário como um suposto sinal de descontrole. Um trecho de um jingle da campanha da comunista dizia: "Chega de destempero, de força bruta e de irritação". Além da prometida surra em Lula, Virgílio ficou marcado na capital do Amazonas por ter usado a força, por meio da Guarda Municipal, para tirar os camelôs do Centro de Manaus quando foi prefeito (1989-1993).
Na reta final, em uma propaganda de TV de Vanessa, um locutor dizia: "Na TV ele é manso". Era exibido então um trecho do debate da TV Bandeirantes no qual Virgílio dirige-se à senadora: "Eu lhe desejo muito boa sorte e muita paz, porque eu quero paz". O locutor voltava e afirmava: "Na realidade, não". Neste momento surgia uma imagem de arquivo de quando o tucano era prefeito, dizendo: "Quiseram briga. Briga. Eu quero briga. Vamos ver no que vai dar".
Durante a campanha, Virgílio foi moldando um novo perfil, tentando se livrar da marca de antes. Recuou e disse que a ameaça de dar uma surra em Lula foi um arroubo. Também prometeu formalizar os vendedores ambulantes e colocá-los em pequenos shoppings.
Para tentar neutralizar o alinhamento de sua adversária com a presidente Dilma, o tucano prometeu aderir a programas como o Minha Casa, Minha Vida e afirmou que, em um país democrático, as parcerias entre prefeituras e o governo federal independem de partidos.
Diplomata por formação, o ex-senador voltou ao Itamaraty depois da derrota de 2010, classificada por ele como um "massacre", e trabalhou na área política da embaixada do Brasil em Portugal:
- Como dizia o Ronaldo Cunha Lima (ex-governador da Paraíba), em política ninguém mata, ninguém morre. Depois de 2010, eu não fiz nada que inviabilizasse meus próximos passos. Eu fui à luta.
Com o cacife da votação consagradora, Virgílio vai pedir uma reunião do PSDB nacional para fazer um balanço das eleições e discutir o futuro do partido. Para ele, a sigla precisa dialogar com a sociedade de forma mais direta:
- Temos que reformular pontos do discurso, que também envelhece. Dois partidos nacionais vivem momentos de encruzilhada. O PT pelo momento difícil que está passando (mensalão), e o PSDB precisa reencontrar o discurso de sua fundação.
virgílio ameaçou deixar a legenda
Apesar de a eleição de Virgílio estar sendo faturada pelo PSDB, o partido não apostava nele. O ex-senador chegou a ameaçar deixar a legenda, no início da campanha, quando o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, seu correligionário, entrou com uma ação judicial para acabar com os benefícios fiscais da Zona Franca de Manaus, motor econômico da cidade.
Depois dessa crise, o diretório nacional do PSDB doou R$ 800 mil para a campanha de Virgílio, o que correspondeu a 40% do que ele declarou ter arrecadado em prestação de contas parcial. Mas Alckmin não recuou da ação judicial e o presidente do partido, deputado Sérgio Guerra (PE), preferiu não se meter. Dos nomes nacionais do PSDB, só Aécio Neves participou da campanha.
Virgílio não esconde a mágoa por ter sido abandonado pelo PSDB em 2010, quando perdeu a vaga no Senado para a comunista. Depois da ameaça de deixar a sigla, o ex-senador diz agora que sua relação com o partido foi normalizada e restringe o problema ao governador de São Paulo, com quem diz estar rompido:
- Da outra vez eu lutei só. Era simbólico para o Lula obter o resultado que obteve, e não foi simbólico para o meu partido me defender.