Título: Guerra pelo voto feminino
Autor: Lage, Janaina
Fonte: O Globo, 02/11/2012, Mundo, p. 28

Democratas apostam em agenda social, e republicanos, na economia, para conquistá-las

“A sua primeira vez não deveria ser com qualquer um, mas com alguém que realmente se importa e entende as mulheres, um cara que se preocupa se você terá plano de saúde, principalmente com controle de natalidade”, diz a atriz Lena Dunham, da série “Girls” num anúncio da campanha democrata que causou polêmica ao relacionar a perda da virgindade com a decisão de escolher pela primeira vez o ocupante da Casa Branca. Num país onde o voto não é obrigatório e as mulheres comparecem às urnas em maior número, além de representarem a maioria dos indecisos, Barack Obama e Mitt Romney travam um verdadeiro embate nesta etapa final para entender o que, de fato, mobiliza o eleitorado feminino. A agenda social tem roubado a cena, com uma enxurrada de propagandas sobre aborto, controle de natalidade, recursos para o Planned Parenthood — prestadora de serviços de saúde reprodutiva do país — e igualdade salarial. Levantamento da Kantar Media/CMAG mostra que, em outubro, houve mais de 1.500 menções a aborto em apenas uma semana, com anúncios contra e a favor da prática, aprovada pela Suprema Corte no país em 1973. O APOIO ESSENCIAL DAS SOLTEIRAS O estrategista democrata John Zogby diz que trazer a agenda social para o primeiro plano foi a forma encontrada para mobilizar as jovens e solteiras, que tendem a apoiar Obama. Embora estejam preocupadas com a situação da economia, elas também levam em conta temas como aborto, contracepção e casamento gay. — A questão é saber se ele pode mobilizá-las a votar. E há claramente um problema com o entusiasmo nesta eleição. O voto das mulheres solteiras representa a diferença entre a vitória e a derrota do presidente — disse. Curiosamente, lembra Katherine Jellison, professora de História da Universidade de Iowa, o que marcou definitivamente a chegada destes temas à campanha não foi uma iniciativa democrata, mas as gafes dos candidatos republicanos ao Senado, como Todd Akin, do Missouri, que defendeu a existência de defesas naturais do corpo para evitar gravidez em casos de estupro, e Richard Mourdock, de Indiana, que chamou de “vontade de Deus” a gestação após estupro. — O incomum é que Murdock foi o único candidato ao Senado a contar com propaganda de apoio de Romney. Mesmo dizendo que não concordava com a declaração, ele manteve o anúncio no ar após a polêmica — destaca. Medir o impacto da agenda social sobre as eleitoras é tarefa complexa. Pesquisa de âmbito nacional do Gallup colocou o aborto como tema prioritário para 1% das mulheres. Mas nos estados- chave, onde a disputa deve ser decidida, enquete do instituto colocou o tema como o mais importante para 39% das entrevistadas. — Desde 1980 as mulheres tendem a gravitar mais em torno do Partido Democrata, que se apresenta como a legenda a favor da agenda feminina. Mas a partir do primeiro debate, Romney buscou se aproximar das eleitoras, moderando suas posições e contrariando propostas defendidas nas primárias — disse Katherine. Em 2008, o voto feminino foi um dos principais responsáveis pela vitória do democrata: ele contou com 13 pontos percentuais de vantagem entre as mulheres. Mas nesta eleição, pesquisas mostram uma adesão menor à campanha. AS PRIORIDADES DAS MÃES-GARÇONETES Brendan Nyhan, professor de Governo do Dartmouth College, lembra que as moradoras do subúrbio, apelidadas de “mães do Walmart” ou “mães-garçonetes”, termos que se referem a mulheres brancas de renda mais baixa, têm sido alvo das duas campanhas. Alguns analistas defendem, no entanto, que essa fatia do eleitorado está preocupada com questões mais prementes, como desemprego, preço da gasolina ou “como colocar comida na mesa”. O desemprego feminino, atualmente em 7,5%, é maior do que quando Obama assumiu o cargo. E é justamente a estas mulheres que Romney e sua mulher, Ann, têm dedicado atenção especial. Robert Watson, diretor de Estudos Americanos da Lynn University, ressalta que o principal problema de Obama neste momento é ampliar o apoio feminino nos estados mais disputados: — Na Flórida, por exemplo, ele tem um ou dois pontos de vantagem entre as mulheres, isso não é suficiente. Ele precisa de ao menos 53% para ganhar. É difícil despertar entusiasmo para um segundo mandato. É como na vida, lembramos do primeiro beijo, nunca do segundo.