Título: Um retrocesso na balança
Autor: Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 18/11/2012, Economia, p. 33

Com crise global e protecionismo, país terá pior superávit em 10 anos, dizem consultorias

Comércio exterior

O comércio exteror brasileiro terá retrocesso de dez anos em 2012, com superávit abaixo de US$ 20 bilhões, conforme projeções de várias consultorias. A última vez em que a diferença entre exportações e importações ficou abaixo dessa cifra foi em 2002 - o saldo foi de US$ 13,2 bilhões. Para o ano que vem, os resultados comerciais esperados são ainda piores, de no mínimo US$ 12 bilhões, o correspondente a menos da metade do registrado em 2011, de US$ 29,7 bilhões.

Além da forte retração da demanda mundial, puxada pela crise europeia e pela economia americana em marcha lenta, do câmbio, da baixa competitividade de produtos industrializados nacionais em relação aos asiáticos e do aumento de medidas protecionistas pelos mercados compradores, é elevado o nível de incertezas em relação ao ano que vem. Há dúvidas sobre os desdobramentos da crise na zona do euro, o novo governo Barack Obama, o apetite da China por commodities agropecuárias, metálicas e minerais e os rumos da fragilizada economia argentina.

- A não ser que em dezembro sejam contabilizadas exportações de última hora de plataformas de petróleo, por exemplo, o resultado será abaixo de US$ 20 bilhões. Para 2013, há pessoas dentro e fora do governo que admitem déficit comercial - disse o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

Afetadas pela crise na União Europeia (UE) e pela retração da economia mundial, as exportações brasileiras só cresceram nos dez primeiros meses do ano para os Estados Unidos (9,6%), entre os principais mercados compradores. As vendas estão em queda, mesmo com as intervenções no mercado de câmbio pelo Banco Central, as desonerações fiscais e as medidas protecionistas adotadas pelas autoridades.

Em outubro, a balança fechou com superávit de US$ 1,662 bilhão, valor 29,5% menor que o registrado no mesmo período do ano passado. As consultorias estão revendo para baixo as projeções e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) abandonou, em setembro, a ideia de metas de exportação. O último valor projetado era de US$ 264 bilhões. De janeiro a outubro de 2012, as vendas externas foram de US$ 202 bilhões.

Avessa a projeções, a secretária de Comércio Exterior do Mdic, Tatiana Prazeres, disse que, apesar da queda de 4,6% das exportações brasileiras, houve melhora nas vendas de produtos manufaturados. A possível reação da economia americana também é uma boa notícia. No entanto, ela admitiu que os desdobramentos da crise na UE constituem uma das grandes preocupações do governo, já que o bloco é responsável por 20,5% das compras de produtos brasileiros:

- Apesar dos problemas, há bons motivos para esperarmos melhora.

Secretária critica Argentina

Segundo técnicos do governo, as dificuldades que persistem na zona do euro contribuíram para a UE a retomar as negociações de um acordo de livre comércio com o Mercosul. As conversas estavam paradas há cerca de três anos.

- A crise europeia para o Brasil é o pior dos mundos - reforçou o presidente da AEB.

Para Castro, a expectativa para o ano que vem é que as cotações dos produtos agropecuários permaneçam elevadas, enquanto as das commodities metálicas e minerais comecem a cair. Ele prevê um saldo comercial de US$ 18 bilhões em 2012. O valor seria resultado de US$ 252 bilhões em exportações e US$ 234 bilhões em importações.

- As commodities , que representam 70% do total da pauta de exportações, estão salvando a balança comercial brasileira. Se não fossem esses produtos cotados em Bolsa, a queda de cerca de 4% projetada para 2012 seria de pelo menos 10% - enfatizou.

A Argentina é outro problema para o Brasil. O país passa por sérias dificuldades econômicas e institucionais. As autoridades argentinas reduziram as importações de produtos brasileiros em 25,8% em outubro deste ano sobre o mesmo mês de 2011. Nos dez primeiros meses de 2012, a queda é de 20,8%. Mas os argentinos aumentaram compras dos mesmos bens oriundos de outros países, em geral, asiáticos.

- Até entendemos quando um país precisa reduzir suas importações para proteger suas indústrias. O que não dá para admitir é que isso só ocorra com produtos brasileiros, enquanto as importações de outros mercados crescem - afirmou Tatiana Prazeres.

Incertezas sobre EUA e China

No caso da economia dos EUA, apesar de boa parte da equipe de Obama continuar no cargo, o presidente democrata não conta com maioria do Congresso. Uma das dúvidas é sobre como fazer acordos bilaterais com um Executivo que poderá não ter mandato para isso concedido pelo Legislativo.

- Seria importante para o Brasil a abertura do mercado agrícola americano, o que não deve acontecer. Melhor seria se os EUA deixassem de ser tão protecionistas - disse o economista Fábio Silveira, da RC Consultores. Ele prevê superávit de US$ 18 bilhões em 2012 e de só US$ 12 bilhões em 2013.

A China, que antes garantia mais superávits do que déficits ao Brasil, de janeiro a outubro deste ano importou 6% a menos de produtos brasileiros. Ela é grande compradora de soja, minério de ferro e açúcar. Mas não se sabe ao certo se a China seguirá crescendo a um ritmo tão forte. Neste fim de semana, Tatiana Prazeres desembarcará em Xangai com a missão de promover carnes, vinhos, café, mel e sucos brasileiros.

- Os interesses da China no Brasil são mais profundos: quer conquistar o consumidor. Investe em várias áreas, de energia a telecomunicações.