Título: Um terço dos jovens sem o ensino médio
Autor: Duarte, Alessandra; Benevides, Carolina
Fonte: O Globo, 29/11/2012, Economia, p. 32

Evasão no Brasil é quase três vezes maior do que a média de 29 países da Europa, aponta estudo do IBGE

retratos do brasil

RIO E MACEIÓ Uma geração de jovens brasileiros está ficando para trás na educação - e colocando em risco a própria capacidade produtiva do país no futuro. A Síntese de Indicadores Sociais 2012, divulgada ontem pelo IBGE, mostra que um terço dos jovens de 18 a 24 anos no país não completou o ensino médio nem estava frequentando a escola em 2011. A taxa é quase três vezes maior do que a média de 29 países da Europa. O estudo aponta ainda desigualdades na qualidade das redes pública e privada, e mostra que metade dos adolescentes de 15 a 17 anos não frequenta a escola na idade certa.

Segundo o IBGE, a taxa de evasão escolar precoce de jovens de 18 a 24 anos - ou seja, o percentual da população nessa faixa que, além de não ter completado o nível médio, não frequentava a escola - foi de 43,8% em 2001 para 32,2% em 2011. Entre as mulheres, o percentual é de 26,6%, mas chega a quase 40% no caso dos homens: 37,9%. Numa comparação com 30 países europeus, os percentuais masculino e feminino do Brasil são melhores apenas do que o de Malta. Suíça, por exemplo, tem 5,7% e 6,8% para mulheres e homens, respectivamente.

Além da qualidade da educação, a força de trabalho no país acaba sendo afetada pela escolaridade dessa faixa etária, já que se trata da geração que será o trabalhador adulto das próximas décadas, sublinha Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

- Acreditávamos que a taxa de evasão dessa faixa (18 a 24 anos) estaria mais baixa, porque já teria dado tempo para o estímulo ao ensino médio que o Fundeb trouxe a partir de 2007 fazer efeito - diz Cara. - É preocupante, porque os jovens de hoje serão a força de trabalho adulta em 2040, quando o país será formado majoritariamente de adultos e idosos. Então, garantir uma melhor formação para esses jovens é garantir a própria capacidade produtiva do país. O Brasil ainda não percebeu que está perdendo essa corrida contra o tempo; que aquela ideia de país do futuro vai deixar de existir, porque não teremos mais tantos jovens para isso, e grande parte de jovens que se tornarão adultos e idosos não tem um mínimo de qualificação.

no nível médio, fora da idade certa

O combate à evasão no ensino médio passaria, em grande medida, não só por ações como aumento de vagas fora do horário noturno, mas por uma reformulação do currículo do ensino médio.

- Pesquisas mostram que 40% dos que deixam a escola resolvem sair porque não têm motivação. Eles não enxergam uma escola que caiba em suas vidas - afirma o educador Mozart Neves Ramos. - Com a população envelhecendo, não podemos desperdiçar nenhum jovem. As turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos) precisam de mais investimento. As indústrias já perceberam que há uma faixa de jovens que não estuda nem trabalha e que não consegue entrar no mercado.

Além da evasão, o ensino médio enfrenta o fato de que há uma grande parcela de alunos nesse nível fora da idade certa. Segundo o IBGE, a taxa de frequência líquida (a taxa de jovens frequentando o nível de ensino na idade adequada) para os adolescentes de 15 a 17 anos em 2011 foi de 51,8% (em 2001, era de 37,3%) - significa que metade deles não frequenta na idade correta, o que também acaba favorecendo a evasão. Segundo Cara, uma das metas do próximo Plano Nacional de Educação (PNE), em análise no Congresso, é que essa taxa fique em 85% em dez anos:

- Se ficarmos no mesmo nível de esforço dos últimos dez anos, porém, daqui a dez anos subiremos cerca de 14 pontos (a diferença de 2001 para 2011) e alcançaremos 65%, não 85%. O nível de esforço desta década vai ter de ser mais que o dobro que o da anterior.

Há dois anos, Dennis Messias, de 21, morador de Maceió, trocou a escola pelo emprego de pintor e de garçom. Fez até a antiga 5ª série em escola municipal:

- Escolhi sobreviver.

Hoje, Dennis está desempregado. Não pensa em voltar para a escola. Pablo Anthony de Almeida, de 16 anos, também desistiu dos estudos, este ano. Fez até o oitavo ano, após uma caminhada de repetências:

- É difícil. Não tenho interesse.

Hans Myller Tenório da Silva, de 24 anos, está casado há seis. Tem um filho de 5 e uma menina que nasce até dezembro. Ele e a mulher, de 20, deixaram os estudos antes do fim do ensino médio:

- Se pudesse pedir algo para a presidente Dilma, pediria um trabalho urgente, minha filha nasce mês que vem.

O acesso ao ensino superior melhorou, mas ainda há lacunas. Dos jovens pretos e pardos de 18 a 24 anos matriculados no país, o percentual deles no nível superior subiu de 10,2% para 35,8%, mas ele ainda é menor do que o que a população branca tinha em 2001.

- O avanço dos negros nas universidades deve ter algum efeito das cotas, articuladas com o aumento da renda - diz Ana Saboia, coordenadora da pesquisa, lembrando que a distância entre brancos e negros ainda é de dez anos.

O IBGE aponta também que a desigualdade na qualidade do ensino entre as redes pública e privada no Brasil só não é pior, numa lista de 26 países, que as de Panamá, Quirguistão e Qatar, segundo a avaliação internacional Pisa de 2009. Além disso, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da rede pública em 2011 é pior do que o da rede privada em 2005, tanto nos anos iniciais do fundamental quanto nos finais e no nível médio.

E, na educação infantil, o IBGE mostra que metade das crianças de 4 anos está fora de creche ou pré-escola; no Chile, 75% delas frequentam instituição de ensino; no México, 99%.