Título: Golpe contra o separatismo
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Fonte: O Globo, 26/11/2012, Mundo, p. 28
Sem maioria absoluta, Artur Mas se reelege presidente da Catalunha e terá que negociar
ALIANÇAS PARA A SECESSÃO
O plano de conseguir maioria absoluta nas eleições regionais fracassou. Mas, mesmo perdendo espaço no Parlamento da Catalunha e sem um triunfo avassalador, o presidente separatista da Catalunha, Artur Mas, foi reeleito ontem para o segundo mandato. Tecnicamente, a vitória lhe dá sinal verde para a convocação de um referendo pela separação da região do restante da Espanha - além de deflagrar um duro embate com o governo central espanhol, de Mariano Rajoy, em Madri.
A coalizão conservadora Convergência e União (CiU) conquistou 50 das 135 cadeiras do Legislativo catalão - 12 a menos que as atuais 62, numa queda atribuída por analistas aos efeitos da política de austeridade. O declínio, porém, não afeta o jogo de forças na Casa, dominada por facções dispostas a conseguir a independência de Madri, mas apenas obriga Mas a costurar alianças.
- Ficamos longe da maioria que queríamos - admitiu o líder, em seu discurso de vitória num hotel de Barcelona. - Não temos força suficiente para liderar o governo e o processo; é preciso uma reflexão da política catalã e pactos com outras forças. A situação não fica fácil, mas nós vamos adiante.
SEGUNDO COLOCADO DESAFIA MAS
O presidente ressaltou ainda não estar arrependido de ter antecipado as eleições, previstas inicialmente para 2014, por conta da crise econômica e do renascimento do separatismo entre uma população que acha que a Catalunha estaria melhor fora da Espanha - mas ainda na União Europeia.
Apesar da viabilidade ideológica de uma aliança com outros partidos visando ao plebiscito, alguns analistas insistem que, sem ter nas mãos da CiU os dois terços necessários para desafiar a Constituição e o governo central, Mas tem uma barreira psicológica para derrubar em sua luta pela independência da Espanha.
Sua maior tarefa será cortejar o Partido da Esquerda Republicana (ERC), igualmente secessionista, que num feito inédito dobrou a presença na Casa e despontou como o segundo maior da Catalunha, com 21 deputados.
- Ele (Mas) falhou na tentativa de fazer dessas eleições um plebiscito pessoal - desafiou Dani Fernandez, chefe de campanha do ERC.
De acordo com o jornal "El País", o índice de comparecimento às urnas foi alto: 68% dos 5,4 milhões de eleitores aptos a votar. E as longas filas formadas durante todo o dia em 2.718 seções eram a prova de que a população da Catalunha teme, de fato, a chegada da crise à região que ainda é o motor responsável por 20% da economia da combalida Espanha.
Em terceiro lugar, emergiu o Partido Socialista, elegendo 20 deputados. E uma das vozes mais claras contra o projeto independentista, o conservador Partido Popular (PP) - liderado pelo presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, teve um desempenho fraco e acabou como o quarto partido da Catalunha, com 19 cadeiras.
Em Madri, Rajoy preferiu não comentar o pleito regional e o futuro da briga que se desenha com os separatistas catalães - com quem já se estranha devido à sua recusa em renegociar um acordo fiscal com a região semiautônoma. Anualmente, cerca de ¬ 16 bilhões pagos pela Catalunha em impostos (cerca de 8% de sua produção econômica) não voltam para os catalães.
- Hoje eu não falo de política - afirmou o chefe de governo espanhol, após reunir-se com o rei Juan Carlos.