Título: Braço-direito, uma maldição no governo
Autor: Farah, Tatiana; Roxo, Sérgio
Fonte: O Globo, 02/12/2012, País, p. 6

Primeiro foi Waldomiro Diniz, então braço-direito de José Dirceu. Um ano depois, foi a vez do próprio Dirceu, principal ministro do presidente Lula. Até a presidente Dilma Rousseff enfrentou de perto a maldição do número dois, quando Erenice Guerra, sua assessora mais próxima durante oito anos, foi pega em traficâncias suspeitas. Nos últimos dez anos, com frequência alarmante, repetem-se casos nos quais o principal assessor de uma alta autoridade do governo federal é apanhado em irregularidades.

Há dez dias, foi a vez de Rosemary Noronha, ex-chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo, e de José Weber de Holanda, ex-advogado-geral adjunto da União, serem acusados pela Polícia Federal de negociar pareceres de órgãos federais. Rosemary ganhou o cargo pelas estreitas ligações com o ex-presidente Lula, e foi mantida pela presidente Dilma. Segundo aliados, a primeira declaração de Lula teria sido semelhante à de quando seu governo foi apanhado no mensalão: "Eu me senti apunhalado pelas costas...".

Ainda é difícil mensurar o impacto do caso sobre a popularidade de Lula e de Dilma, mas o desgaste do advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, é inequívoco. Há duas semanas, Adams era considerado um dos ministros mais influentes, cotado para assumir desde a Casa Civil até uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. O envolvimento de seu principal assessor no esquema evaporou seu prestígio.

A maioria dos casos passa pela venda de facilidades ou de influência junto ao governo. Autor do livro "Capitalismo de laços", o professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) Sérgio Lazzarini vê na burocracia estatal a raiz do problema. E defende a simplificação das regulações do Estado para diminuir o espaço para o tráfico de influência.

- A iniciativa privada quer duas coisas: participar dos projetos do governo e também que os problemas dela sejam resolvidos. No Brasil tudo é muito regulado, você vai construir um prédio e precisa ter não sei quantos alvarás, não pode cortar árvore sem autorização. Então, essas pessoas acabam agindo como facilitadoras de todo esse processo. Para a iniciativa privada, ter um conhecido na burocracia que vai agilizar um processo pode ser uma grande fonte de vantagem - explica.

Para o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília, o aparelhamento do Estado - hoje, existem 22 mil cargos de livre nomeação no governo - explica casos de corrupção:

- Quando você abre a porta e deixa um zé-ninguém atuar, com a nomeação de militantes incompetentes e corruptos, acaba abrindo um flanco muito amplo para problemas.