Título: O Velho Chico como palco
Autor: Ribeiro, Luiz
Fonte: Correio Braziliense, 14/10/2009, Política, p. 6

Presidente Lula começa hoje um giro de três dias pelas obras de transposição e revitalização do Rio São Francisco. Levará a tiracolo a ministra Dilma Rousseff, pré-candidata petista à Presidência da República

Máquinas operam em Pernambuco. Governo diz que a transposição é uma prioridade

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia hoje uma viagem de três dias pelo Rio São Francisco para ver de perto as obras de revitalização em Minas Gerais e na Bahia, além do projeto de transposição, em Pernambuco. As visitas ao Velho Chico são consideradas um pretexto para que Lula tente alavancar a pré-campanha presidencial da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), que ele levará a tiracolo. As obras da bacia estão incluídas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Anunciada como prioritária pelo governo, a transposição prevê um investimento de R$ 5 bilhões, enquanto a revitalização deve representar um gasto de R$ 1,5 bilhão.

Na semana passada, Dilma iniciou uma série de viagens para popularizar o seu nome. Primeiro, esteve em Salvador. No último domingo, participou da festa religiosa do Círio de Nazaré, em Belém, representando o presidente da República. O viés político do novo giro presidencial, criticado pela oposição, pode ser observado logo no seu ponto inicial, em Buritizeiro, onde Lula e sua comitiva, integrada ainda pelo ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), chegam pela manhã e serão recebidos pelo governador mineiro Aécio Neves (PSDB).

O avião de Lula descerá no aeroporto de Pirapora, separada apenas pelo rio São Francisco de Buritizeiro, que está na margem esquerda. Assessores do governo chegaram a anunciar que o presidente e a ministra Dilma visitariam obras de revitalização em Pirapora, já que obrigatoriamente precisam descer na cidade, administrada pelo prefeito Warmillon Fonseca Braga (DEM). Mas houve uma mudança de planos, e a comitiva, agora, visitará apenas as obras de recuperação da bacia em Buritizeiro, cujo prefeito é o padre Salvador Raimundo Fernandes (PT).

Queixa A mudança no roteiro revoltou o prefeito de Pirapora, que acusou lideranças estaduais do PT de retirarem a cidade da programação pelo fato de ser administrada por um partido de oposição ao governo Lula. ¿Acho que não tem nada a ver esse tipo de retaliação simplesmente por coloração partidária¿, reclamou Fonseca Braga. O presidente do PT em Minas, deputado federal Reginaldo Lopes, confirmou que Pirapora estava nos planos da visita e foi retirada da agenda na última hora, mas negou qualquer viés político na decisão. ¿A agenda foi modificada porque o presidente decidiu fazer uma visita mais extensa, a outros trechos do São Francisco. Pirapora foi um dos municípios que mais receberam recursos do governo federal nos últimos anos. Se houvesse preconceito do governo federal, as transferências não teriam ocorrido¿, alegou o dirigente petista.

De acordo com a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf), em Buritizeiro, município de 26,2 mil habitantes, estão sendo aplicados R$ 12,5 milhões para a implantação de 45 quilômetros de redes de saneamento, além de uma estação de tratamento de esgoto. Segundo a prefeitura, cerca de 50% dos serviços já foram executados. Para Pirapora, cidade com o dobro de habitantes (53 mil), foram liberados cerca de R$ 5 milhões para os mesmos serviços, de acordo com a Codevasf. Mas, nesta última, as obras estão em estágio mais avançado do que em Buritizeiro.

De Minas Gerais, Lula e Dilma vão para Barra (BA). Depois de descer no aeroporto vizinho de Xique-Xique, o presidente e a ministra vão fazer um sobrevoo de helicóptero pelo Velho Chico até o porto de Barra. Ali, eles deverão fazer um passeio de barco para verificar as condições da hidrovia do rio, incluída no projeto da revitalização. O presidente não vai encontrar o bispo de Barra, o frei dom Luiz Cappio, crítico da transposição. Ontem, a Diocese de Barra informou que o bispo está em viagem e que não ficou sabendo a tempo da visita de Lula.

Ainda hoje, o presidente Lula e sua comitiva seguem para Pernambuco a fim de visitar as obras da transposição. Ele vai pernoitar no canteiro de obras entre Sertânia e Custódia. Amanhã, visitará o eixo Leste do projeto, em Floresta. Pernoita novamente na obra, do lote 11. Na sexta-feira, vai ao eixo Norte, em Cabrobó.

Trunfos A transposição do Rio São Francisco é um dos principais projetos de infraestrutura constantes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), uma das bandeiras que a ministra Dilma Rousseff pretende empunhar no embate de 2010. No roteiro traçado pelo Planalto, o PAC terá como companhia, na propaganda eleitoral, o Programa Minha Casa, Minha Vida, cujo objetivo é construir 1 milhão de casas populares

» Colaborou Tiago Herdy

Oposição vê viés eleitoral

A maratona de visitas às obras de revitalização e transposição do Rio São Francisco que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz a partir de hoje com a ministra da Casa Civil e sua pré-candidata ao Planalto, Dilma Rousseff, gerou críticas da oposição e de ambientalistas. Para o líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN), além do objetivo eleitoral de favorecer a petista, a viagem do presidente ao Vale do Rio São Francisco, em Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, visa esconder os problemas enfrentados pelo governo com o excesso de gastos públicos e dar uma ideia de que ¿tudo vai bem, obrigado¿.

¿Em 2009, a arrecadação teve uma queda de 1,5% em termos nominais. Mas as despesas do governo com pagamento de pessoal cresceram 16%. Por isso, houve a queda do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), e agora o governo se viu obrigado a segurar as restituições do Imposto de Renda. Então, para iludir a opinião pública, resolveram fazer esse périplo, que tem o claro cunho eleitoral, com a ministra (Dilma) a tiracolo, mas querem também tapar o sol com a peneira¿, disparou José Agripino.

Meio Ambiente Para o ambientalista Apolo Heringer Lisboa, as obras da revitalização do Rio São Francisco apresentaram avanço no que se refere ao tratamento de esgoto. Mas, para a recuperação da bacia, faltam investimentos em outras ações para aumentar o volume de água e permitir o retorno dos peixes ao rio, como o combate ao assoreamento e o replantio de matas ciliares.

¿Não podemos negar que houve avanços, com o tratamento de esgoto em cidades menores. Mas é preciso acelerar as obras de recuperação ambiental¿, afirmou Heringer, que é um dos fundadores do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco. À frente do Projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ele também coordena as ações para a despoluição do Rio das Velhas, um dos principais afluentes do Velho Chico. O ambientalista lembrou que o governo incluiu no projeto da revitalização a construção de barragens em afluentes do São Francisco. ¿Mas construção de represas não significa revitalização¿, salientou.

A Companhia do Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf) em Minas divulgou relatório informando que os investimentos na revitalização do rio no estado chegam a R$ 476 milhões, incluindo, além do tratamento de esgoto, a recuperação de matas ciliares e o combate ao assoreamento. Integrante da Comissão Interparlamentar de Estudos do Rio São Francisco, o deputado estadual Paulo Guedes (PT) contestou Apolo Heringer e afirmou que a obra de revitalização inclui várias ações, como o fornecimento de água potável para as populações ribeirinhas. (LR)