Título: É inútil colaborar com a Justiça, diz advogado de Marcos Valério
Autor: Uribe, Gustavo; Souza, André de
Fonte: O Globo, 12/12/2012, País, p. 4
O advogado Marcelo Leonardo, que defende Marcos Valério no julgamento do mensalão, reclamou do STF, que, segundo ele, não está valorizando quem colabora com a Justiça. Esse seria, segundo ele, o caso de seu cliente, que pegou a pena mais alta dentre os 25 réus condenados: 40 anos, dois meses e dez dias de reclusão em regime inicialmente fechado:
- É inútil colaborar com a Justiça. Porque, no caso da ação penal 470 (mensalão), quem mais colaborou teve a maior condenação e não teve o benefício da redução (da pena).
Leonardo alegou sigilo profissional para não falar da origem dos recursos pagos por Marcos Valério para que ele fizesse sua defesa. Em depoimento prestado à Procuradoria Geral da República (PGR) no dia 24 de setembro, Valério afirmou que o PT desembolsou R$ 4 milhões para pagar seu advogado e que esta seria a única contrapartida que teria recebido do partido pela "ajuda" que deu nas operações financeiras que deram origem ao mensalão, segundo informações do jornal "O Estado de S. Paulo".
- Eu não tenho nada a declarar sobre o conteúdo dessa matéria, porque cumpro meu dever profissional de sigilo. Tem pessoas que não cumprem. Elas arquem com as suas responsabilidades - afirmou Leonardo ontem.
Já o advogado do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, citado no depoimento de Valério como conhecedor de todo o esquema, repudiou ontem a referência ao seu cliente. Segundo Valério, o também réu do mensalão teria se reunido com ele, em 2003, no Palácio do Planalto, para acertar os empréstimos com instituições financeiras que ajudariam no financiamento do escândalo político.
Valério disse ainda que Dirceu ressaltou, durante o encontro, que o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares falava, quando negociava com o operador do mensalão, em nome de Lula e que teria autorizado, nessa primeira etapa, a tomada de um empréstimo de até R$ 10 milhões. O advogado do ex-ministro da Casa Civil afirmou que as provas testemunhal e documental, produzidas no julgamento do mensalão, demonstram "de maneira cabal" que as declarações de Valério "não têm qualquer procedência".
- José Dirceu jamais se reuniu com Marcos Valério, com Lula e com Delúbio Soares no Palácio do Planalto, bem como nunca conversou qualquer assunto com ele, muito menos a respeito de financiamentos de campanhas - afirmou.
Ele negou ainda que o ex-ministro da Casa Civil tenha sido ameaçado pelo empresário Ronan Maria Pinto. No depoimento, Valério afirmou que o PT pediu-lhe R$ 6 milhões, quantia que seria paga ao empresário de Santo André (SP) para que não chantageasse mais lideranças petistas, entre elas Dirceu. Segundo o advogado, a quebra dos sigilos fiscal e telefônico do ex-ministro da Casa Civil deixou patente "a ausência de qualquer relação sua com Marcos Valério".
O criminalista refutou também afirmação de que Dirceu teria incumbido Valério de viajar a Portugal para negociar a doação de recursos da Portugal Telecom para o PT.
- Todas as testemunhas que prestaram esclarecimentos na ação penal 470 a respeito da viagem de Valério a Portugal negam, taxativamente, que ele tenha falado em nome do ex-ministro Dirceu ou do PT.