Título: Hora de transição na Venezuela
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Fonte: O Globo, 11/12/2012, Opinião, p. 20
O destino da Venezuela está, mais do que nunca, nas mãos de Hugo Chávez, ou melhor, nas dos médicos que o operarão pela quarta vez desde junho de 2011 e, pela terceira vez, para remoção de tumor maligno. Mas, se das vezes anteriores, mesmo de Cuba, ele sempre se manteve à frente do governo, desta ele avisou aos venezuelanos que talvez tenha de deixar o comando do país, numa indicação de que seu estado se agravou.
Pela primeira vez, Chávez falou oficial e publicamente de sua sucessão: disse que seu substituto será o chanceler Nicolás Maduro. O líder bolivariano admitiu mesmo que talvez não possa reassumir em 10 de janeiro a presidência, que ocupa há 14 anos, para um novo mandato de seis anos, após a reeleição em outubro. Neste caso, assumiria o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, para convocar eleições em 30 dias. Se Chávez ficar incapacitado durante os quatro primeiros anos de mandato, o vice assume e tem o mesmo prazo de um mês para marcar eleições. Se o problema com o titular ocorrer nos últimos dois anos, o vice assume e completa o mandato. Chávez, então, voltou de Havana para Caracas para ungir o sucessor e tentar evitar disputas dentro do movimento chavista. Mas já está novamente em Cuba para ser operado.
A inesperada mudança da situação abre novas possibilidades à oposição. Nas eleições presidenciais de outubro, ela concorreu com um candidato único, Henrique Capriles Radonski, um jovem governador que recebeu 6,5 milhões de votos, ou 44% do total, algo nunca conseguido por qualquer candidato que tenha enfrentado Chávez. Capriles é candidato à reeleição ao governo do estado de Miranda nas eleições para governadores que se realizam domingo. O chavismo, querendo a todo custo derrotá-lo, escalou para enfrentá-lo o próprio vice-presidente do país, Elias Jaua.
Ainda não se sabe que impacto terá o anúncio da piora da saúde de Chávez neste pleito. O que parece claro é que a oposição à ditadura bolivariana e ao "socialismo do século XXI" terá de se manter unida para poder enfrentar com sucesso o herdeiro de Chávez, Nicolás Maduro, se novas eleições presidenciais forem mesmo convocadas. Ou algum "plano b" golpista do chavismo.
Mesmo no caso de afastamento do caudilho, não se pode desconsiderar a força do chavismo, principalmente nos setores mais pobres - e majoritários - da população. Mas esta seria a primeira vez em 13 anos que o movimento não teria à sua frente a figura carismática e populista de Chávez. Um vitória da oposição representa a única chance de se começar a desmontar o aparelho chavista, autoritário e retrógrado. É uma tarefa lenta e penosa. Mas é igualmente a melhor oportunidade para a Venezuela recuperar a estabilidade institucional, o dinamismo econômico, os investimentos nacionais, estrangeiros e a credibilidade.