Título: Indústria alerta para risco de racionamento
Autor: Nogueira, Danielle ; Ordoñez, Ramona
Fonte: O Globo, 20/12/2012, Economia, p. 40

Petrobras teria sugerido às federações de Rio e SP o uso de óleo diesel para liberar gás natural às térmicas

Rio e São Paulo - Diante do baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas e da maior demanda por geração térmica, a Petrobras procurou as federações das indústrias do Rio e de São Paulo pedindo que orientassem as empresas a darem preferência ao uso de óleo combustível e óleo diesel, pois a empresa terá de elevar a oferta de gás natural para as térmicas, segundo fontes do setor. O pedido acendeu o sinal amarelo na Firjan, que distribuiu comunicado a seus associados com o alerta para a possibilidade de racionamento de energia neste fim de ano e no início de 2013. A entidade também cobrou do Ministério de Minas e Energia (MME) providências para garantir o abastecimento. Autoridades descartaram risco de racionamento. Nos governo de Lula e Dilma, o risco de racionamento sempre foi rebatido e considerado um problema do governo de Fernando Henrique Cardoso

A Firjan se diz preocupada especialmente com as regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde as hidrelétricas estão com o nível dos reservatórios em 29,86%, abaixo do ano de racionamento (2001), quando estavam em 32,27% em 31 de dezembro, segundo dados do Operador Nacional do Sistema (ONS). O volume dos reservatórios também está próximo ao chamado "nível meta", ou seja, o mínimo para garantir o abastecimento com segurança em 2013/2014. No Sudeste, esse índice é de 28% em dezembro, sempre considerando o último dia do mês. O período úmido deveria ter começado no fim de outubro ou início de novembro, mas as chuvas têm sido escassas por causa do fenômeno El Niño.

"Diante do quadro, a possibilidade de ocorrência de eventos de desabastecimento temporário de energia para o fim do ano e início de 2013 aumentou substancialmente, alcançando níveis preocupantes", diz nota da Firjan. "A diretoria considera que qualquer medida que se reflita em custos ou escassez de insumos energéticos trará impactos significativos à competitividade industrial e ao desenvolvimento do país."

Oficialmente, Firjan e Fiesp negam que tenham sido procuradas pela Petrobras. A estatal também nega. Em nota, garantiu que não existe qualquer risco de desabastecimento aos seus clientes e que "está cumprindo rigorosamente seus compromissos de suprimento".

O diretor do Deparamento de Infraestrutura da Fiesp, Carlos Cavalcanti, adotou um discurso mais moderado que o da Firjan:

- Não existe debate sobre racionamento em 2013. Poderíamos falar de racionamento em 2014. Mas 2013, não. Isso já está garantido com a chamada energia de reserva. Ainda ontem (terça-feira) liguei para o Chipp (Hermes Chipp, diretor-geral do ONS). Ele voltou a me falar sobre a importância de ter as térmicas ligadas para garantir o abastecimento.

Com o baixo nível dos reservatórios, as térmicas, que costumam ficar desligadas durante o ano, estão operando a pleno vapor. Isso significa que estão demandando gás natural em volumes acima da média para o ano. O temor da Firjan é que o aumento dessa demanda leve as distribuidoras de gás a deslocar o gás da indústria para a geração térmica. De acordo com o gerente de competitividade da federação, Cristiano Prado, a geração térmica representava em novembro 23% do total gerado no país. Em novembro de 2011, era de apenas 7%.

"A elevada demanda de gás natural para suprimento das térmicas poderá levar as distribuidoras estaduais a exercer junto aos seus clientes industriais as cláusulas de flexibilidade e de interruptibilidade dos contratos. Qualquer um dos eventos terá impactos negativos inequívocos sobre a atividade industrial", diz a Firjan.

O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, afirmou que o risco de racionamento está descartado. Ele admitiu que o período úmido está "atrasado", mas assegurou que há gás para atender a demanda industrial e de geração de energia. Diz que as térmicas estão gerando cerca de 13,5 mil megawatts (MW) médios e ainda podem gerar mil megawatts médios adicionais. A EPE é responsável pelo planejamento energético.

- A nota da Firjan é leviana. É uma irresponsabilidade lançar uma nota dessas sem nos procurar antes. Não se pode comparar com a época do racionamento justamente porque hoje temos as térmicas. Naquela época não tínhamos.

Ele explicou que há três contratos de fornecimento de gás entre a Petrobras e seus clientes: firme, flexível e interruptível. No primeiro caso, há a garantia do fornecimento de gás. No segundo, a Petrobras se compromete em oferecer outra fonte de combustível, como o óleo diesel. Na última modalidade, pode cortar o fornecimento de gás, e o cliente terá de buscar alternativas.

Para Tolmasquim, não haverá falta de gás, mas o preço tende a ser mais alto. Isso porque a demanda por gás nessa época do ano é grande no Hemisfério Norte, por causa do inverno. As importações de Gás Natural Liquefeito (GNL) pela Petrobras, portanto, tendem a custar mais. Num ano em que a estatal está cortando gastos e chegou a ter prejuízo bilionário, é natural que tente convencer os clientes a reduzir o consumo de gás, para que suas despesas com a compra do insumo não cresçam tanto, dizem fontes.

Os especialistas se dividem quanto ao racionamento. Para Nivalde de Castro, do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, o abastecimento energético está assegurado porque as térmicas devem se manter operantes no período úmido (até março/abril), algo que nunca aconteceu. Já Roberto Araújo, diretor da ONG Ilumina, diz que o risco é real e critica "a fragmentação na gestão do setor elétrico".

Espanhóis e chineses na energia de Belo Monte

A espanhola Abengoa e o consórcio liderado pela chinesa State Grid arremataram ontem, em leilão na Bovespa, as principais linhas de transmissão que entregarão a energia de Belo Monte. As duas ficaram com metade dos oito lotes leiloados. O deságio médio foi de 21,7%. No total, as linhas terão investimentos de R$ 5 bilhões e devem ficar prontas em até 36 meses. Analistas esperavam deságios menores, por causa da indefinição com a MP 579, que antecipa renovação das concessões para garantir redução do preço da luz. Para o governo, o resultado do leilão é prova de que o setor mantém a atratividade.