Título: Milhões de estudantes participam no Brasil
Autor: Weber, Demétrio
Fonte: O Globo, 21/01/2013, País, p. 4
As olimpíadas de Matemática e Língua Portuguesa para escolas públicas ajudam a despertar talentos e melhorar a aprendizagem. Em comum, mobilizam milhões de estudantes, em mais de 5 mil municípios, e distribuem medalhas. Enquanto a competição de matemática identifica alunos com capacidade acima da média, a de português tem foco na formação de professores.
Sandra Regina de Oliveira Lúcio é formada em Letras e leciona há 23 anos, na cidade paraibana de Pombal. Ela diz que sempre teve dificuldade para ensinar seus alunos a redigirem textos.
Em 2010, decidiu participar pela primeira vez da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro - cabe aos professores inscreverem suas turmas. Mas nem isso adiantou. Ela revela que ignorou as dicas sobre como estruturar as aulas, pois só queria que um de seus alunos ganhasse medalha.
No ano passado, porém, Sandra Regina leu com atenção o material pedagógico e dedicou parte do ano letivo a atividades de redação na Escola Estadual Monsenhor Vicente Freitas, que começou a funcionar com turmas em horário integral em 2012. O esforço deu resultado: a estudante Patrícia Vieira de Queiroga, do 2º ano do ensino médio, conquistou uma das cinco medalhas de ouro da categoria Artigo de Opinião. Aluna e professora foram premiadas, numa solenidade em Brasília.
A olimpíada de Língua Portuguesa é promovida pelo Ministério da Educação e pela Fundação Itaú Social. Sandra Regina é só elogios ao Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), entidade responsável pela coordenação técnica da competição:
- Ao longo da minha carreira como professora, eu não conseguia ensinar meus alunos a escrever. A partir da metodologia do Cenpec, comecei a compreender o caminho que o aluno deve percorrer. Não é corrigir o texto, dar nota baixa e deixar para lá. A gente vai orientando, respeitando o que o aluno conseguiu aprender e levando-o sempre mais para a frente.
Para ganhar o ouro, a estudante Patrícia escreveu e reescreveu diversas vezes um texto sob orientação da professora. Antes da etapa nacional, o artigo foi escolhido como o melhor da turma, da escola, do município e do estado. Na semifinal, Sandra Regina e a aluna foram a Belo Horizonte, onde a garota e os demais competidores redigiram um segundo artigo, longe dos respectivos professores, para comprovar que eram, de fato, os autores do primeiro texto.
A gerente da Fundação Itaú Social, Isabel Santana, afirma que as escolas progridem à medida que os professores ingressam em novas edições da competição.
- A olimpíada melhora a formação do professor para ele ensinar independentemente da olimpíada. E nunca o aluno é premiado sozinho. É uma estratégia de mobilização. Quanto mais um professor participa, mais ele se apropria da metodologia - acrescenta.
Já a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) consiste em duas provas: uma de múltipla escolha, com 20 questões, e outra com seis questões discursivas. Na primeira fase, 5% dos alunos com melhores resultados em cada estabelecimento avançam para a etapa derradeira. Participaram 46.728 colégios.
Os testes são aplicados no mesmo dia, em todo o país. Em 2012, 823 mil alunos chegaram à segunda fase. A primeira teve 19,1 milhões de inscritos, mas a Obmep não sabe quantos exatamente compareceram. A estimativa é que a abstenção tenha ficado abaixo de 10%, o que resultaria num universo de mais de 17 milhões de estudantes.
- A prova é concebida para detectar alunos talentosos e não alunos que tenham uma boa formação em Matemática. Não requeremos conhecimento formal, mas capacidade de abstração e raciocínio. Dessa forma, tentamos possibilitar que alunos de escolas não tão boas possam competir em pé de igualdade - diz o coordenador-geral da Obmep, Claudio Landim, diretor adjunto do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa).
O Impa organiza a olimpíada, que é bancada pelos Ministérios da Educação e de Ciência, Tecnologia e Inovação. A edição do ano passado foi a oitava. No total, já foram selecionados 4.500 medalhistas do ensino fundamental e do médio, dos quais 500 conquistaram o ouro - 200 deles de turmas dos 8º e 9º anos do ensino fundamental. A entrega ocorrerá em 2013.
Os medalhistas têm direito a participar de um programa de iniciação científica, com aulas mensais. A Obmep também paga bolsas a medalhistas que, ao ingressarem na universidade em cursos que não o de Matemática, façam disciplinas nessa área do conhecimento.