Título: PIB dos EUA cai pela 1ª vez desde 2009
Autor: Barbosa, Flávia
Fonte: O Globo, 31/01/2013, Economia, p. 27

Os Estados Unidos evitaram o mergulho no abismo fiscal nas primeiras horas de 2013, mas pagaram uma fatura alta pela indefinição prolongada. Encerrando o primeiro mandato do presidente Barack Obama, a economia americana encolheu 0,1% no quarto trimestre de 2012, devido ao pé no freio na produção das empresas e um histórico aperto de cintos do Pentágono. Foi o primeiro recuo do Produto Interno Bruto (PIB) desde o fim da Grande Recessão, no segundo trimestre de 2009. No ano, porém, a expansão da atividade foi de 2,2%. Surpresos, os analistas creditaram a contração - que seria maior não fosse o avanço no consumo das famílias e no nível geral de investimentos - na conta do Congresso e do governo, que deixaram até o último minuto incertos cortes de despesas e de aumentos de impostos que entrariam em vigor no último dia 1º.

A média dos analistas projetava crescimento de 1,1% no trimestre de encerramento de 2012, sobre os três meses anteriores. Ao contrariarem as previsões, os números do PIB levantaram incertezas sobre o ritmo da atividade este ano, quando novas batalhas fiscais estão programadas até maio. O acordo que evitou o abismo é temporário e, se não for substituído por um permanente de redução do déficit público até 1º de março, será disparado o gatilho de cortes automáticos, que pode enxugar em mais de US$ 100 bilhões despesas correntes e de defesa. Até 27 de março, o Congresso também tem de aprovar o Orçamento, sob pena de um apagão do Executivo. Além disso, apesar de continuar firme, o consumo das famílias pode ser afetado pela elevação da carga tributária sobre a folha de pagamentos.

Ainda assim, a maioria dos analistas apontou bons indicadores nos números do PIB. Chamaram a atenção particularmente no trimestre o crescimento de 2,2% do consumo das famílias, acima do 1,6% do trimestre anterior; a alta de 15,3% no investimento residencial, o sétimo trimestre positivo consecutivo; e a expansão de 12,4% no investimento das empresas, patamar mais elevado em um ano. O uso de estoques (freando a produção de novos produtos) e a trava nos gastos de Defesa seriam movimentos atípicos.

- Tenho certeza de que começaremos a ouvir o famigerado "R" (recessão). Isso é prematuro e provavelmente errado. A economia americana está crescendo, embora provavelmente abaixo do potencial. Mas não superdimensione meu otimismo: a recuperação ainda é precária e o Congresso ainda pode implodi-la - afirmou o economista Justin Wolfers, da Brookings Institution.

Analista da Standish, braço do BNY Mellon, Thomas Higgins também não crê em desaceleração acentuada, embora tema o ajuste fiscal:

- Esperamos que o crescimento seja de cerca de 2% no primeiro trimestre e que a recuperação continue ao longo de 2013. No entanto, permanecemos temerosos de que cortes automáticos de gastos possam frear a atividade econômica no segundo e terceiro trimestres.

corte na defesa tirou 1,28 ponto do pib

Entre outubro e dezembro, preparando-se para a iminência de um corte de cerca de US$ 55 bilhões, o Pentágono ceifou o orçamento de Defesa em 22,2%, a maior retração em 40 anos, custando 1,28 ponto percentual ao PIB (ou seja, a economia poderia ter crescido 1,27% sem esta contribuição). Os gastos militares têm muita importância na economia americana, devido à indústria bélica e de equipamentos.

No período, as empresas, em vez de fabricar novos produtos, queimaram US$ 40 bilhões em estoques - boa parte formada no trimestre anterior. Isso custou 1,25 ponto percentual ao PIB. A crise permanente na Europa e a desaceleração dos emergentes também produziram efeitos negativos, ao reduzirem o comércio mundial. As exportações americanas caíram 5,7% no quarto trimestre, fechando o ano com expansão de 3,2% (contra 6,7% em 2011).

A Casa Branca destacou os números positivos do PIB, mas, em guerra com a oposição em variados assuntos, aproveitou os dados do Departamento de Comércio para pressionar o Congresso.

- O relatório é um lembrete da importância de o Congresso agir para evitar feridas autoprovocadas à economia. O governo continua a conclamar o Congresso a trabalhar responsavelmente num orçamento sustentável, que equilibre receitas e despesas e substitua o sequestro (corte automático de gastos) e permita investimentos críticos na economia que promovam o crescimento e a criação de empregos e protejam nossos cidadãos mais vulneráveis - afirmou Alan B. Krueger, que preside o grupo de conselheiros econômicos de Obama.