Título: Para mercado, governo usa dólar para segurar IPCA
Autor: Neto. João Sorima
Fonte: O Globo, 16/02/2013, Economia, p. 23

Apesar das declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que o câmbio não será usado para conter a inflação, especialistas avaliam que o Banco Central (BC) aceitou a valorização do real frente ao dólar para amenizar pressões inflacionárias. O câmbio saiu do patamar de R$ 2,13 por dólar, no fim de novembro, para os atuais R$ 1,96, uma queda de 8% em pouco mais de dois meses. Com um real mais forte, produtos cotados no mercado internacional, especialmente alimentos, com forte peso no IPCA, tendem a ficar mais baratos em dólar.

De acordo com a consultoria Tendências, cada 10% de desvalorização do dólar tem um impacto de 0,5 ponto percentual na inflação. Considerando essa queda de 8%, o governo já tirou um peso adicional de 0,4 ponto da inflação oficial medida pelo IPCA.

- O sinal de que a inflação pode ficar em 6% este ano, encostando no teto da meta, fez o BC aceitar um dólar abaixo de R$ 2. O governo não quer elevar a Selic porque as expectativas de crescimento da economia estão se deteriorando. O mercado prevê crescimento de 3% para este ano, enquanto o ministro fala em 4% - diz o economista Silvio Campos Neto, especialista em câmbio.

Embora não exista uma meta para o câmbio, os operadores de mercado perceberam a atuação do BC no sentido de levar a cotação do dólar a menos de R$ 2. Só em dezembro, foram realizados quatro leilões de contratos de swap tradicional. Essa operação equivale a uma venda de dólares no mercado futuro. Sempre que o BC realizou esses leilões, o dólar recuou frente ao real.

- O BC viu que o câmbio perto de R$ 2,10 é perverso para a inflação, dado o volume de importações brasileiras - diz o diretor de câmbio da Pioneer Corretora, João Medeiros.