Título: Títulos públicos com uma dose de risco
Autor: Bôas, Bruno Villas
Fonte: O Globo, 25/02/2013, Economia, p. 21

Após altos ganhos em 2012, papéis prefixados do Tesouro Direto perdem até 7% com possível alta da Selic

Os investidores que acompanham mês a mês o desempenho de suas aplicações em títulos públicos devem ter uma desagradável surpresa na próxima quinta-feira, quando receberem o extrato de fevereiro do Tesouro Direto, o sistema de compra e venda dos papéis pela internet. Após cinco meses de bons ganhos, o dinheiro aplicado em títulos prefixados - que rendem uma taxa combinada no momento da compra do título - encolheu de 0,49% a 7,53% nos últimos 30 dias, até a semana passada. Quem tinha R$ 5 mil no fim de janeiro teve uma perda de até R$ 376,50. O mau desempenho chama atenção porque muitos investidores buscam nessa aplicação um retorno constante e de muito baixo risco.

Segundo analistas, as perdas foram provocadas por apostas no mercado de que o Banco Central (BC) vai aumentar os juros básicos da economia, a Selic, de 7,25% para 7,50% ao ano nos próximos meses. Quando isso acontece, os títulos prefixados rendem menos e os pós-fixados (que acompanham a Selic) rendem mais. Essas apostas começaram com a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que avançou 0,86% em janeiro. Na visão de parte dos economistas, com a inflação pressionada, a autoridade monetária teria que elevar os juros na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) em abril deste ano.

O MELHOR É MANTER APLICAÇÃO

Segundo Fabio Gallo Garcia, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo, os números servem para lembrar os investidores que a renda fixa também tem riscos, ainda que moderados. Ele acrescenta, porém, que não existe motivo para desespero. Quem não vender os papéis de volta ao Tesouro e aguardar o vencimento não vai perder dinheiro na aplicação.

- No vencimento eles terão rendido exatamente a taxa prevista no momento da compra, seja de 7,25% ou mais. Mas até chegar ao vencimento, o que pode ser em 2015 ou 2016, os títulos terão meses de rendimento maior ou perdas. Quem comprou 30 dias atrás e precisou vender antecipadamente realmente perdeu dinheiro - explica Gallo Garcia.

Pode parecer contraditório que um título de renda fixa tenha mau desempenho quando os juros sobem, mas existem explicações para isso. Segundo Rossano Oltramari, analista-chefe da XP Investimentos, quem comprou títulos prefixados 30 dias atrás fixou sua taxa de retorno em 7,25% ao ano para os próximos anos. Se a Selic realmente subir a 7,50%, como se aposta, essa aplicação estará rendendo abaixo de outras do mercado, ficando menos atraente. E com a menor procura pelo papel, o valor do título acaba encolhendo.

- O mercado se antecipa ao movimento, por isso os títulos já caíram - diz o analista-chefe da XP. - Quem tem o título, o melhor é esperar. Quem não tem, sempre vale a pena comprar títulos públicos aos poucos, escolhendo diferentes tipos de papéis e vencimentos. É um investimento bom, apesar da volatilidade recente.

GANHOS altos em 12 meses

Esperar é o que pretende fazer o pequeno investidor Felippe Vianna, que tem parte de seu dinheiro aplicado em títulos públicos pelo Tesouro Direto.

- Sei que os títulos podem ter um rendimento negativo. Não acompanho o resultado com muita frequência, mas a queda foi grande. Eu tenho o título com vencimento em 2035. Vou manter enquanto posso, esperando uma recuperação desse rendimento - explica Felippe, cliente da XP.

Apesar das perdas recentes, quem comprou os títulos prefixados há 12 meses não tem muito do que reclamar. Esses papéis renderam desde 11%, caso das LTN, com vencimento em 2015, a até impressionantes 40,76%, caso da NTN-B Principal, com vencimento em 2035. É um desempenho invejável num período de juros extremamente baixos pelo mundo. O elevado retorno ocorreu ao longo do ciclo de corte da Selic, o que atraiu investidores para a aplicação. A Selic caiu de 12,50% ao ano, em agosto de 2011, para 7,25% em novembro do ano passado.

Segundo André Proite, gerente de Relações Institucionais do Tesouro Direto, existe uma preocupação do governo em mostrar para os investidores os riscos dos títulos.

- Ter rendimento negativo em alguns momentos é normal. É o que acontece no mundo inteiro. O indivíduo pode ganhar mais do que quando comprou ou perder quando sair antes. No Brasil, as pessoas estão se inteirando cada vez mais sobre os instrumentos de investimento - diz Proite.

Na semana passada, o Tesouro Direto informou que teve mais resgates do que compras de títulos em janeiro. O saldo líquido foi negativo em R$ 397 milhões. Isso seria sazonal. No mês, muitos títulos vencem e o dinheiro é devolvido aos investidores. Nem todos, porém, reaplicam.