Título: A petistas, Lula diz que quem errou tem que ser punido
Autor: Freire, Flávio
Fonte: O Globo, 02/03/2013, País, p. 4

Um dia depois de o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, dizer que as penas dos acusados no mensalão devem ser executadas até 1º de julho, o ex-presidente Lula afirmou, na reunião do Diretório Nacional do partido ontem, em Fortaleza, que o veredicto precisa ser respeitado. Na conversa fechada com a direção do partido, foi claro no recado: quem errou tem que ser punido.

- Quem errou tem que ser punido, não é o partido que tem que pagar (pelos erros individuais).

Na conversa a portas fechadas, Lula usou uma metáfora para a sua defesa institucional do partido. Disse que, assim com uma família, o PT também tem dificuldade de vigiar os passos de todos os seus filiados.

- Quando uma família tem dois filhos, certamente fica mais fácil de tomar conta deles. Agora, quando se tem dez, alguma coisa escapa - dissera Lula, segundo interlocutores que acompanharam o discurso.

Ao falar com os jornalistas, o ex-presidente afirmou:

- Não dou palpite sobre a Suprema Corte. O que decidiu está decidido, e acabou. Posso concordar ou não, mas jamais darei palpite, até porque fui presidente e muitos deles (ministros) foram escolhidos por mim. Portanto, não dou palpite - disse Lula, depois de um discurso de 40 minutos a dirigentes do partido.

Na quinta-feira à noite, Lula também foi contundente em seu discurso, quando já havia afirmado que "quem errou, tem que ser punido", embora sem referência direta ao mensalão ou a nomes de petistas.

Também no diretório, o ex-ministro José Dirceu preferiu ser cauteloso quando perguntado sobre a posição de Barbosa. Seguindo para o restaurante do hotel na orla de Fortaleza, tratou o assunto com bom humor.

- Deus me livre. Nem pensar em comentar uma coisa dessa - disse ele, também evitando qualquer comentário a respeito do posicionamento de Lula em relação a eventuais erros de dirigentes petistas. - Realmente, não vou falar.

O presidente do PT, Rui Falcão, disse que, se houver culpa, a punição deve ser aplicada de acordo com lei. Ele, no entanto, rechaçou a existência de mensalão e assegurou não haver "quadrilheiro no PT".

- É um princípio geral do direito que, quem comete crimes, deve ter direito a um julgamento justo, direito a ampla defesa e ao contraditório. Concluído o processo, se houver culpa formada, aplica-se a punição prevista em lei. Mas ninguém pode ser condenado sem lançar sua defesa, muito menos sem prova - disse ele, voltando a defender que não haveria materialidade contra os envolvidos no escândalo.

A declaração de Barbosa acendeu o sinal vermelho no encontro do Diretório Nacional do PT, que acaba hoje em Fortaleza. E criou mal-estar no encontro dos petistas, que passaram a defender o direito a ampla defesa.

- Evidentemente que esse processo tem que analisar a natureza dos erros e a incidência disso na natureza partidária. O Lula tem razão quando diz que quem errou deve ser punido, é a regra básica do estado de direito, mas a mesma Justiça que condena tem que saber inocentar - disse o líder do PT na Câmara, José Guimarães.

Para o deputado Devanir Ribeiro, todos os acusados do escândalo têm que ter o direito de se defender. Segundo ele, não há provas concretas, e discorda de Lula sobre a necessidade de se pagar pelos erros cometidos.

- Dentro do governo ou do partido, quem errou tem que pagar. Quem mais defendeu a autonomia do Ministério Público fomos nós (PT). Mas acho que não existiu mensalão, assim como acho que o Dirceu não é chefe de nenhuma quadrilha - disse ele.

Na reunião do diretório, o PT discutiu encaminhar seu projeto de reforma política, prevendo financiamento público de campanha, voto em lista e convocação de uma Constituinte para votar a reforma política.