Título: Evitar a 'italianização' da política
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Fonte: O Globo, 01/03/2013, Opinião, p. 20
Vem de longe o mau humor com a classe política, sentimento que se reflete nas periódicas pesquisas de opinião sobre a imagem das instituições. O movimento que se alastrou pela rede mundial de computadores contra a escolha dos peemedebistas Renan Calheiros (AL) e Henrique Alves (RN) para presidir o Senado e a Câmara parece canalizar toda esta insatisfação com uma classe que, nos últimos anos, protagonizou inúmeros escândalos. O maior deles, o mensalão, com petistas e aliados unidos no assalto ao dinheiro público para financiar o isolamento do Poder Legislativo da vontade do eleitor.
Não que inexistam razões para este desprestígio do Legislativo na sociedade. Mas, feita a constatação, deve-se trabalhar para o resgate do Congresso. O senador Renan Calheiros e o deputado Eduardo Alves indicam ter consciência da necessidade imperiosa de trabalhar pela recuperação do Legislativo. O que é bem-vindo, porque, sem um Congresso respeitado, a democracia perde vigor, torna-se presa fácil de autocratas e salvadores da pátria. Neste sentido, merece aplausos a aprovação, na quarta-feira, em votação simbólica pela Câmara, do fim do 14º e 15º salários dos deputados, um privilégio execrável. Tanto quanto as cifras a serem economizadas - R$ 31 milhões/ano -, tem importância o ato dos deputados, referendando o que já haviam feito os senadores em maio do ano passado, a partir de projeto apresentado pela senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), atual ministra-chefe da Casa Civil.
Pode-se argumentar que este corte é uma gota de água no Lago Paranoá. Não importa, porque a relevância está no gesto, na mensagem dos políticos de que entendem o momento grave por que passa o Legislativo, e que estão dispostos a reagir. Registre-se que, no Rio de Janeiro, a Assembleia Legislativa e a Câmara de Vereadores carioca fizeram o mesmo.
Renan, por sua vez, assumiu com uma proposta de reforma administrativa no Senado para, entre outros objetivos, cortar 25% de 3.125 cargos comissionados, preenchidos por indicações políticas. Ao todo, poderão ser economizados R$ 262 milhões a cada ano. Deve ser incentivado a enfrentar as enormes pressões que costumam existir quando se busca racionalidade na máquina burocrática - e cobrado pelas promessas feitas, aplaudidas na sociedade.
É preciso evitar que o exercício da política no país continue a se desmoralizar. Para que não se permitam situações como a da Itália, em que o partido mais votado nas eleições do fim de semana foi criado pelo comediante Beppe Grillo, vitorioso por investir com ferocidade contra a política tradicional, mas sem qualquer proposta exequível para governar o país. Venceram o anarquismo e o cinismo, este expresso na volta de Berlusconi ao cenário italiano.
E já existem sinais no Brasil desta degradação. Câmara e Senado precisam continuar a agir contra esta metástase.