Título: Poder compartilhado
Autor: Costa, Mariana Timóteo da
Fonte: O Globo, 12/03/2013, Mundo, p. 26

Militares ligados ao governo admitem que Maduro divide com eles a liderança do país

Três militares reformados, dois deles ex-ministros da Defesa, hoje governadores, e um deputado - todos chavistas - admitiram ontem que, após a morte de Hugo Chávez, existe uma "liderança compartilhada" entre civis e militares na Venezuela, o que gerou contundentes críticas de opositores e constitucionalistas, além de preocupações sobre o futuro da democracia.

Pela Constituição, a Venezuela tem um governo civil, cuja autoridade máxima é o presidente. No dia em que o herdeiro político de Chávez e presidente em exercício, Nicolás Maduro, e o candidato da Mesa de Unidade Democrática (MUD, opositora), Henrique Capriles, oficializaram suas candidaturas perante o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), os ex-ministros da Defesa Henry Rangel Silva (governador de Trujillo) e Carlos Mata Figueroa (governador de Nova Esparta), além de William Fariñas (presidente da Comissão de Defesa da Assembleia Nacional), afirmaram a jornais brasileiros que a chamada "alta direção político-militar" é uma realidade no país. O termo, até então desconhecido, vem sendo usado por Maduro desde a morte de Chávez. Os três e o também ex-militar Francisco Javier Arias Cárdenas, atual governador de Zulia, fizeram durante o lançamento da candidatura de Maduro no CNE críticas e até ameaças a Capriles e à oposição que, na véspera, havia criticado a conduta do atual ministro da Defesa, Diego Molero.

- Essas declarações de que o país está tutelado pelos militares me chocam. O governo do país é civil. As Forças Armadas são a instituição para defender a soberania e a vontade do povo - declarou o constitucionalista Enrique Sánchez Falcón.

Atualmente, 20 dos 23 governadores da Venezuela são chavistas; destes, 11 são ex-militares do alto escalão. Dos 165 deputados, 12 são militares, incluindo o presidente da Casa, Diosdado Cabello. Como disse Mata Figueroa ontem, Chávez lhes "preparou durante anos" para serem políticos. E elogiou Maduro por ser inteligente pela aproximação às Forças Armadas.

- Chávez já tinha sua alta direção político-militar, eu era parte dela. O que Maduro está fazendo é tornar esta instância visível. É preciso fazer isso, porque ela é nossa fortaleza, uma direção colegiada e responsável - disse Henry Rangel Silva, cujos bens estão bloqueados nos EUA por suspeitas de que ele tenha ligação com o narcotráfico e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Os EUA, aliás, expulsaram ontem dois diplomatas venezuelanos em represália à expulsão de adidos militares americanos em Caracas na semana passada. Os dois países estão sem embaixadores desde 2010.

Segundo Mata Figueroa, Maduro sempre foi levado por Chávez a reuniões com os militares para que conhecesse as Forças Armadas"

- E isso é bom, porque as Forças Armadas conhecem muita coisa. O que existe entre Maduro e os militares é a mais pura união - disse o ex-militar, dando a conhecer quem faz parte da alta direção político-militar: os governadores, os ministros e o comando militar.

CApriles: deixem chávez descansar em paz

Sobre a hipótese - para os governistas, "quase nula" - de Capriles vencer em 14 de abril, os militares afirmam que respeitariam qualquer decisão do povo, mesmo tendo este "sentimento chavista".

A munição foi voltada contra o candidato da oposição, para quem o juramento de Molero a Maduro, e não ao povo, foi "uma vergonha para as Forças Armadas". Para Mata Figueroa, Capriles "se meteu" com os militares e com a família de Chávez ao questionar a data de sua morte.

Apesar de a campanha só começar no dia 2, milhares de simpatizantes do chavismo reuniram-se no CNE para a postulação de Maduro. Do lado de fora, telões transmitiam tudo.

- Venho cumprir sua ordem com o amor maior que ele cultivou em nosso coração. Não sou Chávez, mas sou seu filho - afirmou Maduro.

Do lado de fora, chavistas não pareciam satisfeitos quando indagados se gostariam de um governo civil-militar na Venezuela.

- Os militares têm que estar ao lado do povo. Vamos votar em Maduro porque ele é o apontado por Chávez. Mas vamos querer sacá-lo do poder se ele não continuar o bom trabalho de Chávez - disseram Hector Carmona e Bruen Mujica. - O povo é quem tem que eleger quem o governa.

A candidatura de Capriles foi apresentada à tarde por integrantes da MUD. O opositor anunciou que, por "luto à morte de Chávez", não convocaria partidários às ruas para acompanhar sua inscrição. Numa entrevista coletiva à noite, o candidato negou que tenha ofendido a família de Chávez.

- Busquem meu discurso e, se virem alguma palavra que ofenda a família do presidente, me desculpo.

Capriles disse não querer "criar intrigas" ao questionar a data da morte de Chávez, mas defendeu que essa é uma dúvida de muitos venezuelanos e uma das perguntas "às quais o governo nunca quis responder". As críticas a Maduro foram mantidas.

- Nicolás é o porta-voz da mentira. A campanha é entre mim e Nicolás, deixem o presidente descansar em paz - afirmou o opositor.

Hoje, a Assembleia Nacional deve votar emenda para alterar a Constituição e levar o corpo de Chávez ao Panteão Nacional, ao lado do de Simón Bolívar. A emenda precisa ser referendada pelos venezuelanos, e deputados afirmaram que a data pode ser a mesma da eleição, dia 14 de abril, o que daria mais vantagem ainda a Maduro.