Título: Ministra cobra apuração de suspeitas contra Marin
Autor:
Fonte: O Globo, 16/03/2013, País, p. 11
A ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, defendeu ontem que seja apurado o eventual envolvimento do atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, com a ditadura e a morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado quando estava preso, em 1975.
A família de Herzog lançou na internet abaixo-assinado pedindo a saída do dirigente por entender que ele teria contribuído com a prisão e morte do jornalista ao defender, na condição de deputado da Assembleia Legislativa de São Paulo, que fosse reprimida a presença de comunistas na TV Cultura. Poucos dias depois, Herzog foi preso e morto. Marin admite ter feito o discurso, mas nega a relação desse fato com a morte do jornalista.
- Penso que todas as pessoas que comprovadamente estiveram envolvidas em situação de morte, tortura e desaparecimentos forçados não devem ocupar funções públicas no país. Porque os que cometeram - e se cometeram comprovadamente esses atos -, traíram qualquer princípio ético de dignidade humana e não devem ocupar funções de representação - disse a ministra, durante cerimônia de entrega do novo atestado de óbito de Herzog, em São Paulo.
No novo documento constam como causa da morte "lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório nas dependências do 2º Exército (DOI-Codi)", substituindo formalmente a versão de "asfixia mecânica por enforcamento", divulgada pela ditadura em 1975 e considerada falsa. Até a tarde de ontem, o abaixo-assinado já contava com 39,4 mil assinaturas. A família Herzog também critica Marin por outro discurso com elogios e homenagem ao delegado Sérgio Fleury, acusado de torturar presos políticos.
Presente à reunião, o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Paulo Sérgio Pinheiro, disse que a comissão ainda não tratou do caso, por isso ainda não teria o que dizer sobre o assunto.
- Isso pode vir a ser tratado, mas, como não discuti com meus companheiros (de comissão), não posso falar. A Comissão tem a prerrogativa de convocar qualquer pessoa para prestar esclarecimentos - disse Pinheiro, que considerou a obtenção de novo atestado de morte para Herzog um ato que abre precedente para que casos de falsos tiroteios, suicídios e atropelamentos "sejam retratados", e as famílias "busquem seus direitos".
A CBF publicou em seu site texto para negar o envolvimento de Marin com a morte de Herzog e atribuir as acusações a uma "torpe campanha visando a tentar desestabilizar a sua atuação à frente da presidência da CBF". O texto trata o assunto como "campanha de difamação baseada em mentiras e deturpação de fatos do passado", e considera o episódio "fruto da má-fé e irresponsabilidade de pseudojornalistas com característico ânimo criminoso", que estariam empenhados "na desmoralização de pessoas de bem para satisfazer maus instintos, entretendo-se em atirar, em que os mira de cima, a lama em que chafurdam delinquentes".
Anteontem, o deputado federal Romário (PSB-RJ) discursou na Câmara pedindo que o presidente da CBF se manifeste sobre as denúncias, que chamou de "graves e constrangedoras".