Título: O voto da polêmica
Autor: Vaz, Viviane
Fonte: Correio Braziliense, 29/11/2009, Mundo, p. 24

Cerca de 3,5 milhões de eleitores estão aptos a escolher o próximo presidente, com supervisão de autoridades de vários países. Processo recebe críticas do Brasil, que não reconhecerá os resultados

Em um processo que a maior parte da comunidade internacional não reconhece, os hondurenhos vão às urnas hoje para escolher o novo presidente da República, assim como deputados e prefeitos. O governo interino de Roberto Micheletti, que organiza o pleito, obteve apoio dos Estados Unidos, da Colômbia, do Panamá e do Peru. Nesta semana, o governo brasileiro reiterou que não pode aceitar as eleições enquanto o presidente deposto, Manuel Zelaya, não retornar à presidência.

¿Os países democráticos precisam repudiar de forma veemente o que ocorreu em Honduras, portanto a posição do Brasil se mantém inalterada. Nós não aceitamos histórias de golpes¿, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sobre o fato de outras nações reconhecerem o processo eleitoral, Lula fez um alerta: ¿Se encararmos com normalidade o golpe de Honduras, amanhã qualquer golpista diz `vou dar um golpe¿ e todo o mundo vai acreditar (que é normal)¿. Na quinta-feira passada, em Manaus, o chanceler Celso Amorim pôs panos quentes e disse que não há confronto entre Brasil e EUA em torno do tema Honduras. ¿Certamente, no princípio, os americanos também condenaram o golpe, mas talvez por termos (na América Latina) sofrido na pele com golpes, seja diferente para nós¿, ponderou.

Até a próxima quarta-feira, Micheletti estará de licença da presidência. Ele deixou o poder no último dia 25 e o repassou a um Conselho de Ministros. A iniciativa, durante a semana eleitoral, foi vista com bons olhos pelo novo subsecretário de Estado norte-americano para a América Latina, Arturo Valenzuela, que assistiu pela primeira vez a uma reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) para tratar da crise. Valenzuela considerou que o mandatário interino abriu um ¿espaço para o compromisso¿. Porém, nem o americano, nem o secretário geral da OEA, José Miguel Insulza, conseguiram desenhar uma posição conjunta da organização quanto às eleições.

A votação não será acompanhada por observadores da OEA ou das Nações Unidas. Mesmo assim, o Tribunal Supremo Eleitoral de Honduras conseguiu convencer algumas autoridades políticas dos EUA, da Bolívia, da Colômbia, da Espanha e da Venezuela a fiscalizarem o pleito. O ex-presidente de El Salvador Armando Calderón está entre os primeiros observadores que chegaram a Tegucigalpa. Os ex-mandatários Vicente Fox (México) e Jorge Quiroga (Bolívia) são outros convidados ilustres para acompanhar as eleições.

Medo O fato de a maior parte da comunidade internacional não reconhecer o processo não incomoda a muitos hondurenhos. ¿Este país vive mais do que o governo americano pensa. Dependemos mais dos EUA que dos demais países¿, explica Danilo Romero, de Tegucigalpa. O técnico em informática acredita que a maioria da população está temerosa de ir aos colégios eleitorais. ¿Mas, se temos consciência de que todos precisamos votar para sair desse impasse, acho que muita gente vai comparecer¿, opina, com a esperança de que o novo líder ¿não passe nem abuse do poder¿.

A hondurenha Coralia Velásquez vive nos Estados Unidos e lamenta ao Correio, pela internet, não poder comparecer hoje ¿ a eleição foi viabilizada apenas em cinco cidades norte-americanas. ¿Se estivesse em Honduras, eu votaria. Na verdade, uma das coisas que mais me dão pena de viver no exterior é não poder votar agora¿, diz. ¿Gostaria de pedir ao mundo que deixe os assuntos internos do país aos hondurenhos¿, completa. Coralia receia que haja alta abstenção nas eleições pela ¿pressão de outros países e de hondurenhos querendo boicotar o processo¿.

Já Denis Omar Estrada é parte do eleitorado que decidiu não ir às urnas. ¿Sinto que realmente a democracia em nosso país se perdeu depois dos acontecimentos de junho (com o golpe de Estado)¿, afirmou, desiludido. ¿Se o povo escolhe um presidente, é o povo quem deveria retirá-lo (do poder)¿, conclui.

Pesquisa A última pesquisa de opinião, cuja divulgação foi autorizada em 27 de outubro, indicava uma vantagem de 16 pontos percentuais para o conservador Porfírio Lobo, do Partido Nacional, sobre Elvin Santos, do dividido Partido Liberal (o mesmo de Zelaya e de Micheletti). Lobo aparece com 37% de apoio do eleitorado, enquanto Santos tem 21%. A cédula eleitoral conta com as fotos de mais quatro candidatos. Um deles, porém, retirou-se da disputa três semanas atrás: o independente Carlos Reyes condicionou sua participação ao retorno de Zelaya à presidência. Por sua vez, o presidente deposto continua na Embaixada do Brasil, em Tegucigalpa, e avisa que permanecerá lá enquanto o governo brasileiro permitir. ¿Se uma ditadura tutela, dirige, coordena uma eleição, esta se torna ilegal¿, ataca Zelaya.

Se uma ditadura tutela, dirige, coordena uma eleição, esta se torna ilegal¿

Manuel Zelaya, presidente deposto de Honduras

Memória Constituinte, golpe e racha

Em 28 de junho, o presidente Manuel Zelaya foi detido pelos militares na residência oficial, em Tegucigalpa, e ¿ ainda de pijama ¿ embarcado em um avião com destino à Costa Rica. O presidente do Congresso, Roberto Micheletti, foi designado para encabeçar um governo interino. As novas autoridades acusaram Zelaya de cometer diversos crimes contra a Constituição, além de corrupção e abuso de poder.

O pivô da crise foi a decisão do presidente de realizar em novembro, no mesmo dia da eleição de seu sucessor, uma consulta popular. Na chamada ¿quarta urna¿, os eleitores responderiam sobre a convocação de uma Assembleia Constituinte para reformar a Carta Magna. Zelaya ignorou o fato de que a Constituição em vigor proibia a manobra, a menos de 180 dias do pleito presidencial, e tentou realizar a consulta com ajuda da força policial. A oposição, majoritária no Congresso, fez uso da força militar para depor o presidente, cuja destituição era examinada também pelo Judiciário.

Amparado pelo reconhecimento internacional praticamente unânime, começando pela Organização dos Estados Americanos (OEA), Zelaya percorreu diversos países, inclusive o Brasil, em busca de apoio político para retornar ao poder ¿ sem sucesso. Até que, em setembro, um avião venezuelano levou-o de volta à capital hondurenha, onde se abrigou na Embaixada do Brasil.

Diplomacia A presença do presidente deposto em plena capital hondurenha elevou a temperatura política no país, mobilizou todo um aparato de segurança e ameaçou dar fôlego às gestões diplomáticas por um acordo que permitisse sua recondução imediata ao poder. Uma maratona de conversações se iniciou e uma sucessão de acordos iniciais foi anunciada, mas cada um foi rompido antes que a solução se impusesse. O governo de fato liderado por Micheletti e a oposição no Brasil denunciaram o uso político da representação diplomática pelo líder deposto.

Entre idas e vindas, Micheletti conseguiu resistir às pressões internas e externas e realizar a eleição de hoje, que rachou a frente internacional: no próprio âmbito da Organização dos Estados Americanos, um bloco até aqui minoritário, liderado pelos Estados Unidos, já se dispõe a reconhecer como legítimo o governo que sair das urnas. A maioria se alinha com o Brasil, que não aceita o processo eleitoral conduzido à revelia de Zelaya.

Os favoritos à Presidência

Porfírio Lobo ¿ Partido Nacional ¿ 37% das intenções de votos

Aos 61 anos, Lobo concorrerá pela segunda vez às eleições presidenciais. Em 2005, ele perdeu o pleito para Manuel Zelaya por apenas 73.763 votos ¿ cerca de 3 pontos percentuais de diferença. Em relação à crise política no país, ele justifica que a bancada votou no Congresso para que o então presidente da Casa, Roberto Micheletti, assumisse o governo após a deposição de Zelaya, em junho. Lobo alega, no entanto, que o apoio foi ¿condicionado ao diálogo¿. Promete anistia para todos os setores, se for eleito. É um dos maiores produtores de grãos da América Central. Formou-se em letras em Honduras, em administração nos EUA e se especializou em política na Rússia.

Elvin Santos ¿ Partido Liberal ¿ 21% das intenções de votos

Foi o vice-presidente de Zelaya entre 2006 e 2008, mas nunca concordou com sua aproximação ao presidente venezuelano, Hugo Chávez, e tratou de se afastar do líder deposto para não fica malvisto dentro do partido. No fim de 2008, ganhou as eleições internas contra Micheletti. É o diretor da empresa Construcción, que mantém 1,2 mil funcionários e vários contratos com a Secretaria de Obras Públicas e Habitação. Essa posição lhe custou a acusação de conflito de interesses.