Título: Para cicatrizar feridas
Autor: Brito, Ricardo
Fonte: Correio Braziliense, 07/12/2009, Política, p. 4
DEM se foca na possibilidade de eleger vários governadores em 2010 para reverter uma das piores situações do partido em 24 anos de história
O senador Ronaldo Caiado espera que o partido saia fortalecido após o desfecho do escândalo no DF
Apesar de alvejado com as denúncias de corrupção que atingem o único governador do partido, José Roberto Arruda (DF), o Democratas aposta na conquista de vitórias eleitorais nos executivos estaduais em 2010 para apagar os tiros abertos na bandeira da ética, o principal discurso político da legenda. Para cumprir essa tarefa, a cúpula do DEM afirma ter candidatos competitivos em cinco estados: Santa Catarina, Rio Grande do Norte, Tocantins, Mato Grosso e Bahia. Ainda mantém esperanças de vencer na capital, caso o vice-governador, Paulo Octávio, também citado nas investigações da Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal, saia sem grandes arranhões da crise em Brasília.
¿O partido vai sair fortalecido nesse processo¿, garante o líder do DEM na Câmara, Ronaldo Caiado (GO). ¿Vamos torcer para esse escândalo não respingar em todos¿, afirma o senador goiano Demostenes Torres. Quatro senadores, Raimundo Colombo (SC), Rosalba Ciarlini (RN), Kátia Abreu (TO), Jayme Campos (MT), e o ex-senador e ex-governador Paulo Souto (BA) almejam concorrer aos governos em seus estados. A disputa é mais confortável para os três primeiros, pois, se perderem, podem voltar ao Senado para completar mais quatro anos de mandato.
Raimundo Colombo já avisou que será candidato ao governo catarinense. ¿Estamos bem estruturados no Sul do Brasil¿, afirmou o senador. Num quadro ainda indefinido, pode enfrentar a também senadora Ideli Salvatti (PT), a deputada federal Ângela Amin (PP), o presidente da Assembleia Legislativa local, Pinho Moreira (PMDB), e o vice-governador Leonel Pavan (PSDB).
A candidatura da potiguar Rosalba Ciarlini, por sua vez, ajudaria indiretamente a difícil tarefa de reeleger o líder do DEM no Senado, Agripino Maia, e o ex-presidente da Casa Garibaldi Alves Filho (PMDB). A senadora deve concorrer contra o atual vice-governador, Iberê Ferreira (PSB), candidato da base aliada. ¿Ela está muito na frente dos demais¿, comemora Agripino.
Já a pré-candidata Kátia Abreu ganhou impulso depois da cassação em setembro do governador de Tocantins, Marcelo Miranda (PMDB), por abuso de poder econômico, compra de votos e uso indevido dos meios de comunicação nas eleições de 2006. Ela busca unir as forças de oposição no estado, num cenário onde apenas o senador João Ribeiro (PR), da base aliada, se declara pré-candidato. Em Mato Grosso, o também pré-candidato Jayme Campos pode abrir mão da disputa em favor do prefeito de Cuaibá, o tucano Wilson Santos, que ganhou projeção nas eleições municipais. Os dois trabalham para minar a influência do atual governador Blairo Maggi (PR), candidato ao Senado, mas sem nome natural para sucedê-lo no Executivo estadual.
Na Bahia, o ex-governador Paulo Souto, que perdeu a reeleição em 2006 para o petista Jaques Wagner, promete voltar à ribalta. Souto foi um dos poucos remanescentes do grupo político do cacique Antonio Carlos Magalhães a não aderir à base aliada após a morte dele, em julho de 2007. Enfrentará páreo duro com dois candidatos governistas: o próprio Wagner e o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), cuja influência política no estado cresceu durante o mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Fatias estaduais A intenção do Democratas é aumentar sua fatia nos Executivos estaduais e, ao menos, manter o tamanho atual das bancadas de deputados e senadores: 55 e 13, respectivamente. No Senado, oito integrantes da bancada terão de fazer campanha se quiserem se manter em cargos eletivos. O partido encolheu praticamente à metade sua participação no Congresso em relação aos dois principais momentos da história: o início da redemocratização, em 1986, e a reeleição do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em 1998.
¿O sistema político beneficia quem está no governo¿, resigna-se o vice-líder do DEM, deputado José Carlos Aleluia (BA). ¿Preferimos ser menores, mas termos propostas, ideias e compromisso.¿
A aposta nos governos estaduais, contudo, esconde a confissão feita nos bastidores: o partido passa pelo pior momento em 24 anos de história (veja cronologia).
Cronologia
1985 ¿ Nascimento Uma dissidência do PDS, o antigo Arena, montou a Frente Liberal.
1986 ¿ Eleição O registro do PFL na Justiça Eleitoral ocorreu em 11 de setembro. Naquele ano, o partido elegeu o governador de Sergipe, Antonio Carlos Valadares.
1990 ¿Ministérios No governo Collor, a legenda assumiu os ministérios da Educação e da Saúde.
1992 ¿ CPI O partido foi protagonista das investigações que culminaram na queda de Fernando Collor. O deputado Benito Gama (PFL-BA), presidente da CPI do PC Farias, foi favorável ao impeachment de Collor.
1993-1995 ¿ Transição O deputado Inocêncio Oliveira (PE), hoje no PR, foi o primeiro pefelista eleito presidente da Câmara. Com a vitória presidencial do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, o PFL obteve a vice-presidência, com Marco Maciel.
1999-2001 ¿ Problemas Eleito presidente do Senado em 1997 e reeleito em 1999, Antonio Carlos Magalhães protagonizou uma briga na base aliada de FHC por não querer entregar o posto ao desafeto Jader Barbalho (PMDB-PA). A contenda teve reflexos na aliança PSDB-PFL e o partido perdeu força.
2003-2006 ¿ Oposição A legenda sente o golpe com a chegada do PT ao poder. O partido assiste à migração de parlamentares e governadores em direção à base aliada.
2007 ¿ Redução O partido segue minguando: elege apenas um governador de estado e diminui, ainda mais, sua presença no Congresso.
2008 ¿ Teste municipal Embora tenha diminuído a presença no Congresso, o partido ganhou a prefeitura de São Paulo, a maior do país, com Gilberto Kassab, que derrotou o tucano Geraldo Alckmin e a petista Marta Suplicy.
2009-2010 ¿ Golpe O partido, que decidiu empunhar a bandeira da ética na política como estratégia de atuação, é ferido com as denúncias de corrupção que envolvem o único governador da legenda, José Roberto Arruda (DF).