Título: Na Palestina, o BC mais estranho do mundo
Autor: Davis, Bob
Fonte: Valor Econômico, 08/09/2008, Especial, p. A12

O presidente do banco central americano, Ben Bernanke, teme ser refém da economia mundial. O presidente do banco central dos territórios palestinos se preocupa com outro tipo de seqüestro.

"Às vezes alguém aponta o revólver para a cabeça do gerente de uma agência", diz Jihad al-Wazir, presidente da Autoridade Monetária Palestina (AMP). "É aí que alguém me telefona."

A AMP é o banco central mais estranho do planeta. Não tem moeda nem país. Não pode controlar os juros nem combater a inflação, como os outros bancos centrais. Seus dirigentes se comunicam com o escritório na cidade de Gaza por videoconferência, porque Israel quase sempre veta a passagem de funcionários da AMP por suas fronteiras. Enquanto isso, o Hamas, o partido islâmico que controla a Faixa de Gaza, quer expulsar o presidente do banco central.

Apesar de tudo, a AMP desempenha um papel fundamental ao pressionar pela modernização dos bancos da Cisjordânia e de Gaza. Esses esforços permitiram aos palestinos ricos que vivem no exterior fazer investimentos na terra de origem. Essa é uma das razões do aumento de 20% nos depósitos bancários palestinos em 2007, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

A AMP está encorajando o empreendedorismo em seus territórios, onde a maioria da população hoje depende de empregos criados pelo governo, mas sem necessariamente gerar serviços. A meta da AMP é se tornar "um verdadeiro banco central" até 2010, com poder para administrar a moeda caso o Estado palestino seja criado.

A AMP também tem uma função política importante diante da nova demanda dos Estados Unidos por um acordo de paz no Oriente Médio. O banco central palestino é administrado por tecnocratas de confiança dos países ocidentais e visto como parte da infra-estrutura econômica de qualquer iniciativa a favor de um futuro Estado palestino.

O despenteado Al-Wazir, de 45 anos, incorpora as contradições da AMP. Ele é filho de um dos fundadores da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que coordenou operações militares da entidade e foi assassinado por comandos israelenses na Tunísia, em 1988. Al-Wazir diz que nunca se reunirá com o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, que comandou o ataque em que seu pai foi morto. Ele faz piadas ácidas sobre o que imagina ser "o Gabinete do Mal" de Israel, composto de burocratas anônimos cujo trabalho é tornar mais dura a vida dos palestinos.

Mas Al-Wazir também tem um lado pragmático. Ele é próximo de Stanley Fischer, o ex-vice-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional que hoje preside o banco central de Israel. Fischer o ajuda a vencer as barreiras da burocracia israelense. Formado em engenharia e com doutorado em administração de empresas, Al-Wazir dirigiu um centro de comércio em Gaza e criou uma empresa de software com um sócio indiano no fim dos anos 90.

Ele demonstra gostar do glamour das finanças internacionais ao relembrar suas aventuras numa conferência em Londres. "Estávamos brindando à rainha", diz. "Parecia coisa de filme."

Al-Wazir tem de navegar por políticas muito mais complexas do que as enfrentadas pela maioria dos bancos centrais. Embora a Cisjordânia seja administrada por um governo secular - a Autoridade Palestina -, a Faixa de Gaza é governada pelo Hamas, um partido que não aceita o direito de existência de Israel e que é considerado terrorista pela Europa e EUA.

A AMP conta com Fischer para que os bancos israelenses continuem a trabalhar com as instituições financeiras palestinas no suprimento de dinheiro e na compensação de cheques. No entanto, quanto mais Al-Wazir consegue a contribuição de Israel, menos credibilidade tem junto dos palestinos, especialmente o Hamas.

Atef Udwan, um veterano advogado do Hamas encarregado de assuntos econômicos, diz que Al-Wazir "é uma pessoa fraca e seus interesses pessoais não são os interesses palestinos". Al-Wazir rebate dizendo que seu objetivo é "preservar e proteger o setor bancário palestino tanto na Cisjordânia quanto na Faixa de Gaza".

Nos últimos seis meses, segundo a AMP, o Hamas aumentou a pressão sobre o banco central confiscando automóveis e interrogando funcionários, dizem executivos da instituição. Udwan diz que o Hamas deve indicar um presidente adjunto para fiscalizar os bancos de Gaza.

De seu escritório à beira-mar na cidade de Gaza, Abdul al-Mashharawi, um diretor da AMP, diz: "Todos os dias nós chegamos ao trabalho e dizemos "Graças a Deus [o Hamas] não destruiu nosso escritório"".

Advogados de vítimas do terrorismo estão processando a AMP nos EUA, sob a alegação de que a instituição é parte do regime palestino, que matou civis. Até agora a AMP ganhou várias decisões nas cortes americanas com provas de que é independente dos governantes dos territórios palestinos. Mas as ações em curso, pendentes de recurso, atemorizaram os bancos israelenses, que temem ser processados sob os mesmos argumentos.

A AMP foi criada em 1995, depois que os acordos de Oslo definiram a criação do Estado palestino. Segundo funcionários de alto escalão dos governos palestino e israelense, a Jordânia votou contra a proposta de permitir que a Palestina tivesse sua própria moeda. Por causa disso, os palestinos usam como moedas circulantes o shékel israelense, além do dólar americano, euro e dinar jordaniano.

A própria AMP desencoraja a idéia de uma moeda palestina. A instituição faz a coleta de dados sobre a atividade econômica e pretende divulgar estimativas de demanda por eletricidade e cimento, mas considera que, para administrar uma moeda própria, precisaria ser capaz de fazer análise econômica sofisticada, um atributo que ainda não tem. Para manter acesa a lembrança de que o sonho nacionalista de moeda própria pode virar pesadelo, Al-Azir mantém a foto de uma nota de 100.000 dólares do Zimbábue, que hoje não tem quase nenhum valor depois de anos de políticas econômicas desastradas.

A economia palestina foi destroçada ao longo dos anos. Israel impediu o acesso de milhares de palestinos ao trabalho em território israelense e construiu uma rede de bloqueio a estradas como medida de segurança que prejudicou seriamente os negócios da população palestina. A economia da Cisjordânia e de Gaza encolheu 40% entre 1999 e 2006, descontada a inflação, e quase não tem crescido desde então, de acordo com estimativas do FMI. O PIB anual está em torno de US$ 5 bilhões.

Depois da morte do líder da OLP, Yasser Arafat, no fim de 2004, os quadros palestinos treinados no FMI e Banco Mundial tentaram reorganizar as agências consideradas redutos de corrupção e empreguismo. Um ex-funcionário do FMI, George Abed, assumiu a AMP e descreveu a instituição num jornal interno como "tensa, medrosa, desmoralizada e dividida". Ele reduziu o número de funcionários, dispensando os que não tinham treinamento econômico satisfatório.

A AMP criou na Cisjordânia uma estrutura de crédito moderna para ajudar os bancos a conferir o histórico de crédito dos tomadores de empréstimos. Também insistiu para que os bancos familiares incluíssem diretores vindos de fora para reduzir o risco de apropriação indébita do patrimônio bancário. A instituição está instalando agora um sistema eletrônico para acelerar os pagamentos das transações bancárias.

No pequeno edifício-sede em Ramallah, compartilhado com a companhia local de abastecimento de água, Al-Wazir ajudou recentemente mais de 20 bancos. Depois de ouvir reclamações de que Israel não estava repondo notas gastas ou danificadas do shékel, ele disse que pediu ajuda a Fischer, o presidente do BC israelense, e a outros. (Pouco depois ele conseguiu 40 milhões de shékels em notas novas, o equivalente a US$ 11 milhões.)