Título: Lula omite-se para não desagradar aliados em Salvador
Autor: Costa, Raymundo; Salgado, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 24/09/2008, Política, p. A7
Enquanto os candidatos do PT e do PMDB à Prefeitura de Salvador brigam diariamente para provar ao eleitorado quem realmente é o homem do presidente na capital baiana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ignorou solenemente os dois partidos. Dessa forma, não desagrada nem o candidato do governador petista Jaques Wagner, nem do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB)
Para Walter Pinheiro, do PT, sobrou para exibir no horário eleitoral um vídeo genérico no qual Lula enumera os feitos de seu governo, com ênfase na área econômica, para depois dizer que tudo o que a União faz será ainda melhor se o prefeito escolhido pelos eleitores for honesto, trabalhador e comprometido com o projeto do PT. Lula é sutil, o vídeo é multiuso e evita deixar claro se apóia candidatos petistas ou de partidos da base.
No PT dá-se como certa a existência de uma outra gravação de Lula em apoio a Pinheiro, mais pessoal, mas que somente seria exibida se ela pudesse ser decisiva para a definição de Pinheiro no segundo turno. O ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, negou a existência do vídeo. Nas últimas 48 horas, o ministro Geddel telefonou 14 vezes para seu gabinete. O ministro está irritado com os rumores sobre a existência do vídeo e também porque uma prometida gravação de apoio a seu candidato em Feira de Santana, Colbert Martins, ainda não havia chegado até suas mãos - seria a retribuição do presidente à gravação que fez em favor do candidato do PT em Feira.
Lula tem razões de sobra para tentar manter-se, tanto quanto possível, afastado da disputa baiana. Geddel é uma das âncoras de sua aliança com o PMDB da Câmara, algumas vezes, citado até para compor uma eventual chapa com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), nas eleições presidenciais de 2010. Por outro lado, o candidato do PMDB à reeleição em Salvador, João Henrique, além de ter o apoio de Geddel é filho do senador João Durval (PDT), ou seja, um voto a mais a que Lula pode precisar recorrer numa emergência.
As eleições municipais na Bahia ainda revelam que a reestruturação do carlismo no Estado ainda não acabou. Hoje há pelo menos cinco grupos disputando o controle da política baiana.
O senador João Durval (que foi carlista na origem) está no PDT, mas botou um pé no PMDB, com o prefeito João Henrique, e outro no PT, com o deputado Sérgio Carneiro, que também é seu filho e concorre à Prefeitura de Feira de Santana, eleição que tirou Geddel do sério após a declaração de apoio de Lula ao petista..
Um segundo grupo está com a candidatura de ACM Neto (DEM), herdeiro natural do carlismo. Fazem parte desse grupo os ex-governadores Paulo Souto e César Borges e o deputado José Carlos Aleluia, todos do DEM. Nada garante que estarão todos no mesmo barco nas eleições para presidente, governador, senador e deputados de 2010.
Por fim, no espectro a direita, o grupo Jutahy Magalhães, o dono do PSDB do Estado. O candidato tucano à Prefeitura de Salvador é Antônio Imbassahy, um ex-carlista que foi aos poucos abandonado pelo partido. O governador Jaques Wagner foi à convenção do PSDB que indicou Imbassahy e mantém uma discreta relação com os tucanos locais.
À exceção do carlismo, que está dividido e disputa o espólio de ACM, todo o resto gira em torno de Jaques Wagner. Inclusive Geddel, embora o ministro tenha avançado sobre mais de 200 prefeituras carlistas, no interior. As forças principais, no momento, são PT, PMDB e DEM - tudo indica que o PSDB continuará a reboque.
Além da gravação de Lula já exibida, o PT baiano também tem mostrado à exaustão cenas do deputado federal e candidato pelo Democratas à prefeitura, ACM Neto, ameaçando dar uma surra no presidente Lula. Em resposta, a campanha de Pinheiro colocou no ar um vídeo de 2006 onde Lula, ao lado de um sorridente Jaques Wagner, na época candidato a governador, diz que tem "até um naniquinho desse tamanho que disse que ia me bater e vocês não me viram responder". Em seguida, palmas e gritos de "Olê, Lula" da platéia presente ao comício.
João Henrique Carneiro, candidato à reeleição pelo PMDB, também tem apelado para gravações e cita os projetos que a prefeitura tem em parceria com o governo federal. Mais sorte teve seu irmão. Sérgio Carneiro, que disputa a prefeitura em Feira de Santana - segundo maior colégio eleitora da Bahia -, ganhou um bom presente de Lula. O presidente aparece em seu programa eleitoral, nomeando-o e pedindo votos. O mesmo aconteceu com João da Costa, candidato petista à Prefeitura do Recife, que teve a candidatura impugnada ontem.
Até Igor Nunes, candidato pelo PHS para a Prefeitura de Tucano, município do semi-árido baiano onde vivem 50 mil pessoas, tem Lula como arma para sua campanha. Na cidade natal de João Santana, marqueteiro que trabalhou com o presidente da eleição de 2006, o PHS está coligado com PT, PCdoB e PV. Na gravação, que iria ao ar ontem à noite, em um telão, Lula diz que Nunes é a solução. (Colaborou Paulo de Tarso Lyra)