Título: Mercado estima que medidas vão liberar R$ 13,2 bilhões em recursos
Autor: Carvalho, Maria Christina; Silva Júnior, Altamiro
Fonte: Valor Econômico, 25/09/2008, Finanças, p. C2

O mercado financeiro estima que as mudanças nas regras do compulsório vão liberar R$ 13,2 bilhões. O volume não é grande considerando que o total de compulsório recolhido ao Banco Central (BC) é de cerca de R$ 250 bilhões. Mas certamente deve contribuir para aliviar o aperto de liquidez que especialmente os bancos pequenos e médios estão sentindo.

"O Banco Central mostrou que está atento e agiu preventivamente para evitar qualquer espécie de contágio da crise internacional. O Brasil está com bom nível de atividade, a inflação está convergindo para a meta e o BC não quis que as perturbações externas quebrassem o movimento", afirmou o presidente da Andima, Alfredo Moraes. "Foi uma medida mais preventiva do que reativa", afirma Rubens Sardenberg, economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

"Não basta a cavalaria apenas anunciar que chegou, como os Estados Unidos estão fazendo, mas tem que mostrar como vai ajudar e irrigar o mercado", afirmou o diretor do Banco BMG, Ricardo Gelbaum. Para ele, as medidas são importantes e devem melhorar a liquidez, como fizeram outros países. A avaliação dos resultados, acrescentou, vai levar alguns dias.

Já ontem mesmo, porém, segundo algumas fontes, as taxas pagas pelos grandes bancos para grandes aplicação em certificados de depósito bancário (CDB) teriam caído de cerca de 105% para 100% a 101% do certificado de depósito interbancário (CDI).

As medidas, segundo especialistas, beneficiarão diretamente os grandes bancos, mas o endereço é melhorar a situação dos bancos médios e pequenos, os mais afetados pelo aperto de liquidez.

Os grandes bancos serão os mais beneficiados porque são eles que geralmente têm empresas de leasing, cujo enquadramento no novo compulsório criado em maio foi postergado, com impacto de R$ 8 bilhões. Também são os grandes bancos que mais recolhem o compulsório adicional, cujo faixa de isenção foi ampliada de R$ 100 milhões para R$ 300 milhões, que vai liberar R$ 5,2 bilhões.

A expectativa é que, agora, os grandes bancos repassem recursos para os médios. Um dos sinais mais claramente visível do empoçamento de liquidez que está experimentando o mercado brasileiro é volume de recursos que o Banco Central enxuga todo dia das instituições financeiras em atuações por um dia (ver gráfico).

O volume praticamente dobrou a partir da quebra do Lehman e da venda da Merrill Lynch. Os bancos brasileiros passaram a preferir repassar as sobras de caixa para o BC em operações compromissadas por dia do que para outras instituições no interbancário. O enxugamento feito pelo BC superou os R$ 70 bilhões nos dois dias entre a eclosão da pressão sobre o Morgan Stanley, nos Estados Unidos, a compra do HBOS pelo Lloyds, na Inglaterra, a queda de 20% da bolsa russa e o dia em que o BC teve que anunciar o leilão de dólar e a administração Bush divulgou o plano de US$ 700 bilhões para resgatar as instituições financeiras.

Desde a criação do compulsório sobre o leasing, o dinheiro ficou mais escasso e caro no Brasil. A isso se somou a virtual congelamento dos créditos externos, nas últimas semanas, em reflexo da crise internacional. Com o recrudescimento da crise externa, os bancos passaram reduziram o repasse de recursos a outras instituições, não por desconfiança da contraparte, mas para garantir a própria liquidez.

Para o economista Bruno Rocha, da consultoria Tendências, não há incoerência entre o afrouxamento do compulsório e o aumento dos juros decidido pelo Copom. Rocha afirmou que a alta do juro tem como objetivo conter a inflação, enquanto as medidas de ontem procuram contornar o problema temporal de falta de liquidez. "O objetivo das duas política é diferente. A decisão sobre o compulsório tem efeito imediato e o BC já mostrou que em janeiro ele volta a subir." Rocha prevê que o próximo aumento da Selic será menor, de 0,50 ponto. "O BC quer conduzir a expectativa de inflação para a meta" , disse Moraes.