Título: Sobram poucas armas para lidar com a crise
Autor: Hilsenrath, Jon; Solomon, Deborah
Fonte: Valor Econômico, 30/09/2008, Finanças, p. C1
Com a rejeição da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos ao plano de US$ 700 bilhões para socorrer o mercado financeiro, o Federal Reserve, o banco central americano, e o Departamento do Tesouro estão limitados no momento a ferramentas que se mostraram inócuas para combater a crise financeira - ou podem incitar batalhas no Congresso.
Autoridades do Fed têm relutado em usar a maior arma de seu arsenal - cortar os juros substancialmente - em parte por causa das preocupações com a inflação. Uma ação rápida agora, além disso, pode não ser oportuna, já que outra versão do plano de socorro ainda pode surgir.
Sem a aprovação do Congresso ao pacote de resgate, o Fed e o Tesouro devem continuar lidando com os problemas caso a caso, à medida que eles surgirem, e inundando o mercado com crédito para ajudar as firmas em dificuldade a sobreviver.
O Fed já cortou fortemente os juros, de 5,25% para 2%, mas optou por mantê-los estáveis em meados deste mês. Num depoimento ao Congresso na semana passada, o presidente do Fed, Ben Bernanke, ressaltou que, apesar de existir a possibilidade de o cenário econômico se deteriorar bastante, ele também continuava preocupado com a inflação, num sinal de que não cortaria os juros sem pensar duas vezes. A próximo reunião do comitê de política monetária do Fed é no fim de outubro.
As autoridades ainda têm esperança de que o Congresso conseguirá aprovar um plano amplo.
Antes do votação de ontem, as autoridades do Fed adotaram novas medidas mais agressivas - em conjunto com outros bancos centrais - ao anunciar planos de disponibilizar uma enxurrada de recursos adicionais para ajudar bancos estrangulados em todo o mundo.
O Fed informou também que vai dobrar o valor de sua janela de redesconto, para US$ 300 bilhões, voltada para bancos com necessidade de caixa. Vai ainda expandir seus acordos com outros bancos centrais para enviar dólares ao exterior, aumentando o total em US$ 330 bilhões, para US$ 620 bilhões.
Enquanto mais e mais bancos ficam à beira do colapso, o governo pode ser forçado a apagar os incêndios que pipocarem através de empréstimos que evitem que a quebra de um tenha conseqüências nefastas para todo o sistema financeiro.
Em março, o Fed, com a aquiescência do Tesouro, injetou US$ 30 bilhões para salvar o Bear Stearns do colapso total e facilitar a venda ao JP Morgan Chase. Nesse caso, o Fed comprou ativos hipotecários diretamente, incluindo alguns que estariam no pacote de socorro que o Congresso estava estudando. Existe a possibilidade de o banco central americano usar a mesma autoridade para comprar mais ativos.
O presidente americano George W. Bush, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, e vários líderes do Congresso podem apoiar a compra emergencial de ativos pelo Fed. Mas tomar essa atitude agora "pode ser interpretado como um drible no Congresso", disse Vincent Reinhart, ex-integrante do alto escalão do Fed que agora trabalha para o American Enterprise Institute. Passar por cima de legisladores democraticamente eleitos para garantir a estabilidade financeira pode ser muito arriscado, disse.
O Tesouro também pode adotar outras medidas menores para ajudar a suavizar a crise, como expandir ainda mais seu programa de compra de títulos imobiliários emitidos pelas hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac. O novo programa, criado durante a nacionalização recente das duas financeiras, já foi dobrado para que pudesse comprar US$ 10 bilhões em títulos ligados a empréstimos imobiliários garantidos por elas.
Embora a compra de títulos emitidos pela Fannie e Freddie possa aliviar um pouco da pressão, esses papéis não são exatamente os ativos podres que o governo acredita que seja necessário remover dos bancos para reabrir o mercado de crédito.
O Tesouro também pode apelar para um fundo criado durante a Grande Depressão para obter recursos que possam ser emprestados a bancos ou que sirvam de garantia. Esse fundo tem cerca de US$ 50 bilhões, e o Tesouro pode usá-lo para dar suporte aos bancos. Esse montante, entretanto, é pequeno.
O Tesouro já tinha anunciado um plano para aproveitar esse fundo para garantir os fundos de curto prazo, algo que pode complicar a proposta de transferir recursos para outros propósitos.
O Fed e o Tesouro também anunciaram outra medida - a expansão do plano do Tesouro para emitir títulos de curto prazo e deixar os lucros depositados à disposição do Fed. Esse programa chegará a US$ 400 bilhões, fornecendo ao Fed mais recursos para emprestar a bancos sem liquidez.