Título: Líderes partidários negociam mudanças para ressuscitar pacote
Autor: Balthazar, Ricardo
Fonte: Valor Econômico, 01/10/2008, Finanças, p. C1
Líderes dos dois partidos que dividem o poder nos Estados Unidos voltaram ontem à mesa de negociações para tentar ressuscitar o plano de socorro ao sistema financeiro proposto pelo Tesouro americano e se mostraram dispostos a fazer novas modificações no pacote para forçar sua aprovação no Congresso até o fim desta semana.
Os mercados de ações recuperaram ontem boa parte das perdas sofridas na segunda-feira, quando a rejeição do plano pela Câmara dos Representantes dos EUA disseminou o pânico entre os investidores no mundo inteiro. Mas a insegurança criada pelo comportamento errático dos políticos americanos e as dúvidas sobre a eficácia que o pacote do Tesouro poderia ter continuaram gerando instabilidade.
Líderes partidários anunciaram ontem à noite que vão colocar em votação uma nova versão do projeto hoje no Senado, onde a resistência ao plano parece bem menor. Eles esperam conseguir recrutar o apoio necessário para submeter o pacote novamente à Câmara amanhã ou depois. Na segunda-feira, faltaram apenas 12 votos para aprovar o plano na Câmara.
Uma das modificações feitas para tornar o projeto mais palatável para os congressistas foi a inclusão de um dispositivo que amplia de US$ 100 mil para US$ 250 mil o valor máximo que os correntistas dos bancos americanos podem receber do governo federal em caso de falência das instituições em que suas economias estiverem guardadas.
A proposta foi endossada pelos candidatos dos dois partidos à eleição presidencial de novembro, o senador democrata Barack Obama e o republicano John McCain. Ambos, assim como o presidente George W. Bush, voltaram ontem a defender a aprovação do pacote do Tesouro, argumentando que as conseqüências do prolongamento da crise financeira para a economia americana seriam catastróficas.
O plano do governo autoriza o Tesouro a gastar US$ 700 bilhões para adquirir títulos associados a hipotecas e outros papéis que estão apodrecendo nas carteiras dos bancos americanos. O Tesouro acredita que conseguirá restaurar a confiança nos mercados de crédito se tirar esses ativos da praça e ajudar os bancos a limpar seus balanços.
A aprovação do pacote poderia ajudar a acalmar os investidores nas próximas semanas, mas especialistas advertem que serão necessárias outras medidas para atacar os fundamentos da crise. "O plano ajudará a segurar as coisas pelo menos até a eleição, mas depois será preciso buscar soluções mais duradouras", disse o economista Simon Johnson, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Uma fonte de preocupação é a dificuldade que os bancos têm encontrado para recompor suas reservas de capital. Como há muita incerteza sobre a qualidade dos ativos, ninguém se sente confortável para emprestar às instituições com problemas. O plano do governo permitiria que os bancos se desfizessem dos ativos mais problemáticos, mas isso não seria o suficiente para eliminar as dúvidas.
Desde o ano passado, grandes bancos americanos e europeus contabilizaram US$ 476 bilhões em prejuízos causados por investimentos descuidados no mercado imobiliário e em outras áreas e levantaram US$ 354 bilhões para reforçar seu capital, segundo o Instituto de Finanças Internacionais (IIF). Analistas estimam que as perdas ainda não reconhecidas pelos bancos sejam superiores a US$ 1 trilhão.
O pacote do Tesouro permite que as autoridades americanas suspendam as regras contábeis que obrigam as instituições financeiras a registrar todos os ativos em seus livros de acordo com seu real valor de mercado. Essas regras foram criadas para evitar a maquiagem dos balanços, mas acabaram contribuindo para acelerar a sangria no setor financeiro nos últimos tempos.
Congressistas republicanos que dizem não gostar do plano do Tesouro por considerá-lo uma intervenção excessiva nos mercados têm feito pressão para que essas regras sejam suspensas, mas até defensores da idéia acham que ela não ajudaria muito a recuperar a credibilidade das instituições com problemas. "Funcionaria um ano atrás, mas agora é tarde demais", disse Peter Wallison, um ex-funcionário do Tesouro hoje no Instituto da Empresa Americana (AEI), um influente centro de estudos.
Os democratas querem que o governo faça mais para ajudar as pessoas que correm o risco de perder suas casas por não conseguir mais pagar suas dívidas. Um dispositivo incluído no pacote orienta o Tesouro a incentivar as instituições financeiras que forem socorridas pelo plano a renegociar os contratos dos mutuários em dificuldade, mas ele não é obrigado a fazer nada. Muitos economistas acreditam que a renegociação dos contratos reduziria a inadimplência e ajudaria a valorizar os ativos dos bancos.