Título: Sem Doha e com crise, Brasil busca negociações bilaterais
Autor: Leo, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 06/10/2008, Brasil, p. A3

As negociações regionais e bilaterais de comércio do Brasil devem ganhar novo impulso entre o fim deste ano e o começo de 2009, apesar das incertezas provocadas pela crise financeira mundial. Governo e setor privado discutem estratégias para as negociações de abertura de mercado para os produtos brasileiros, com o impasse a que chegaram as negociações multilaterais de liberalização comercial na Organização Mundial de Comércio (OMC). Os empresários querem ampliar os temas negociados com os parceiros comerciais, e já estabeleceram prioridades. E eles também avaliam que a crise pode trazer oportunidades para o Brasil, pois o mercado interno torna as negociações atrativas para os demais países. Carla Romero/Valor Mario Marconini, da Fiesp: país fica mais atraente com a crise externa

O governo relutou em aceitar o fracasso das negociações na OMC, por avaliar que só uma negociação abrangente como a realizada na chamada Rodada Doha pode atender aos interesses do país como a redução e eliminação de subsídios que distorcem o comércio agrícola e a diminuição generalizada nas tarifas impostas sobre alguns dos principais produtos de exportação brasileiros. Mas a negociação ficou comprometida com a troca de comando na Comissão Européia, na sexta-feira, quando o negociador da rodada, Peter Mandelson mudou de posto no governo britânico e foi substituído por lady Ashley, que terá num mandato tampão, até o fim de 2009.

Amanhã, altos funcionários de diversos ministérios se reúnem para estabelecer um "mapa" dos principais parceiros comerciais do Brasil, e coordenar uma estratégia para ampliação de mercados nesses países.

"Vamos analisar quais países têm condições de ser alvo de negociações para uma área de livre comércio, com quais devemos nos limitar a negociar preferências comerciais, e em quais a questão é fazer ações de promoção comercial", explicou ao Valor o diretor do departamento econômico do Ministério das Relações Exteriores, Carlos Márcio Cozendey. Alguns países com quem o Brasil já tem acordos comerciais podem merecer discussões mais profundas para evitar que as regras de controle fito-sanitário continuem funcionando como barreiras comerciais não-tarifárias, acrescenta ele.

A reunião de técnicos do Itamaraty e dos ministérios do Desenvolvimento e da Agricultura, além da Agência de Promoção de Exportações (Apex) tem o objetivo também de coordenar as ações que os órgãos do governo vem fazendo nos mercados do exterior. "As embaixadas terão um mapa de onde estão as prioridades em cada país", informa o diplomata. A coordenação da burocracia encarregada das negociações faz parte da nova política industrial, anunciada neste ano, lembra Cozendey.

O setor privado já se adiantou e apresentou ao governo um estudo, realizado pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), que estabelece como prioridade dos esforços de negociação comercial do Brasil os Estados Unidos, a União Européia, o México e os demais países da América Latina. Há interesse também na África do Sul e na Índia, embora a competição indiana levante resistências entre alguns setores. "Há um pós-Doha, e não queremos ficar parados", comenta o diretor do departamento de negociações internacionais da Fiesp, Mário Marconini.

Existe uma diferença de visão entre os diplomatas e os negociadores do setor privado: enquanto os empresários afirmam que muitas das negociações em curso seriam ditadas mais por interesse político que comercial (em países de menor peso comercial na África, por exemplo, como o Marrocos), os negociadores do governo argumentam que estão explorando todas as possibilidades que aparecem no radar comercial, para que, no conjunto, tenham peso no volume de comércio com Brasil.

O Brasil é o país da América Latina com maior diversificação de destino das exportações, embora, como nota a Fiesp, quase 57% das vendas externas estejam concentradas em quatro parceiros: União Européia, Estados Unidos, Argentina e China.

Apesar de considerarem os Estados Unidos um alvo essencial nos esforços para acordos de comércio, os especialistas ligados à indústria reconhecem que há pouco espaço de negociação. "Nem os republicanos, nem os democratas estão muito interessados na idéia de negociar com um país grande como o Brasil tão cedo", comenta o diretor executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), José Augusto Fernandes. A Coalizão Empresarial, que coordena os interesses da indústria brasileira nesse tipo de negociação, deve fazer uma consulta aos empresários todo o país para mapear os interesses dos diversos setores, informa.

Segundo Fernandes, que participou, em setembro, de uma missão aos EUA para discutir perspectivas de comércio, o novo governo americano, antes de iniciar alguma nova negociação comercial de peso, terá de atender às preocupações dos sindicatos, em questões como seguro-saúde e proteção ao emprego ameaçado com a crise financeira.

Fernandes também é pouco otimista em relação às conversas com a União Européia. Os europeus devem fazer pressão para abertura do setor industrial sem muitas contrapartidas em redução de barreiras a produtos agrícolas, acredita ele. O governo tem expectativa de retomar contatos com os europeus ainda neste ano. Nos últimos dias, segundo o graduado diplomata que participa das negociações, diplomatas da UE e do Mercosul tem mantido conversas freqüentes, na tentativa de definir um "ponto de partida" para retomar as negociações entre os dois blocos comerciais.

No caso do México, um dos mercados hoje mais cobiçados pela indústria brasileira, a resistência vem dos mexicanos, incomodados com a falta de melhores resultados dos acordos de livre comércio já firmados pelo país - como o Nafta, com EUA e Canadá. Fernandes acredita, porém, que talvez seja possível atrair os mexicanos reforçando uma negociação que ainda se arrasta nos meios diplomáticos, para uma área de livre comércio na América Latina, entre os membros da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). "O México tem interesse nisso, pelos mercados da região", comenta ele.

Segundo Marconini, da Fiesp, os industriais temem que o Brasil perca mercados para a concorrência, ao ficar fora de acordos de livre comércio entre parceiros do país. "O Brasil está mais preparado para essas negociações, e é um mercado atraente, com a crise", argumenta ele. "O contexto internacional mudou, sobretudo em nosso favor; o Brasil precisa renovar sua política de negociações comerciais", defende.