Título: OMS defende preço mais alto de cigarro no país
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 23/02/2005, Brasil, p. A6

O Brasil tem boa margem para aumentar preço e impostos sobre o tabaco por razões de saúde pública, avalia a diretora do programa da Organização Mundial de Saúde (OMS) contra o tabagismo, Vera Costa e Silva. Essas medidas, além da proibição de publicidade e patrocínio, controle de etiquetagem, combate ao comércio ilícito e ações em favor do fumante passivo, fazem parte das obrigações dos países que ratificaram o tratado internacional contra o produto, responsável pela morte de 5 milhões de pessoas por ano. O tratado entrará em vigor na próxima segunda-feira, com a ratificação por 40 países, incluindo Japão e Índia, grandes produtores de cigarros. Mas o Brasil, que presidiu a negociação do acordo, continua discutindo sua ratificação na Câmara dos Deputados. Para a diretora da OMS contra o tabagismo, o que está acontecendo no Brasil é um "escândalo", diante do que chama de fortes pressões da indústria de cigarro contra a ratificação. "A indústria está dando informação mentirosa e não está defendendo fumicultores, o que não quer é ser regulamentada", disse Vera Costa e Silva. "É um absurdo o que dizem, porque o governo brasileiro não ia assinar um acordo internacional que provocasse desemprego." A OMS contesta versões de que o controle do tabaco causará impacto adverso para a economia de países produtores, como o Brasil, maior exportador mundial da folha de tabaco. Estimativas da entidade indicam que, mesmo se houver redução anual de 1% no número de fumantes, eles ainda serão 1,46 bilhão em 2025. Outro estudo mostra que a produção global será transferida de países industrializados para nações em desenvolvimento na próxima década. A conclusão é de que só dentro de 30 a 50 anos o tratado afetará a produção de tabaco, tempo considerado suficiente para o Brasil adaptar-se às novas condições. Para a assessora da OMS, o Brasil é um dos países que mais necessitam ratificar o tratado para poder se beneficiar de financiamentos internacionais para estimular culturas alternativas ao tabaco. A cada ano, cerca de 200 mil brasileiros morrem de doenças relacionadas ao consumo de cigarro. Entre 80 países, o Brasil está na sexta posição dos que têm o cigarro mais barato. Mas o consumo per capita no país caiu 32% desde 1989. Para o Banco Mundial, um aumento real de 10% no preço reduz a demanda em cerca de 4% nos países de renda elevada e de 8% nos demais.