Título: Dólar alto puxa preço do insumo de Itaipu e afeta caixa das elétricas
Autor: Goulart,
Fonte: Valor Econômico, 10/10/2008, Empresas & Tecnologia, p. B1
O preço da energia de Itaipu, atrelado ao dólar, vai afetar diretamente o caixa de algumas distribuidoras. As empresas que tiveram reajustes recentes terão um impacto financeiro imediato. A Companhia Paulista de Força e Luz, distribuidora do grupo CPFL, e a distribuidora da Cemig são apontadas por alguns analistas como as empresas que podem ter maior impacto, já que tiveram revisão negativa em abril e estão entre as que mais recebem a energia de Itaipu.
A CPFL, por exemplo, teve sua tarifa reduzida em mais de 17% em abril, o que impactou o caixa da empresa no segundo trimestre do ano. A disponibilidade apresentada no balanço dos três primeiros meses era de R$ 423 milhões e, no fim do segundo trimestre, chegou a R$ 196 milhões. Como o balanço é uma fotografia de momento, os números podem não mostrar a realidade. A empresa foi procurada, mas não deu retorno. De qualquer forma, segundo o balanço da companhia, a energia de Itaipu representava 20% dos custos da distribuidora no segundo trimestre, com desembolsos de R$ 115 milhões. A valorização do dólar, nesta segunda parte do ano, pode significar maiores desembolsos por parte da companhia, que só terá um novo reajuste na tarifa no ano que vem.
A exemplo da CPFL, a Cemig teve sua revisão negativa em 12% também no mês de abril. Essas revisões da Cemig e CPFL acontecem de quatro em quatro anos e são diferentes dos reajustes anuais. A Eletropaulo, por exemplo, teve sua revisão tarifária no ano passado e nesse ano um reajuste de tarifa de 8%, o que impacta positivamente o caixa da empresa. Por meio de sua assessoria de imprensa, a Eletropaulo informou que só vai se manifestar sobre os impactos de Itaipu quando divulgar os resultados do terceiro trimestre. Em seu balanço do segundo trimestre, a companhia informa que no reajuste anual a cotação do dólar levada em consideração foi de R$ 1,64. Isso significa que a empresa terá impactos no caixa com o dólar mais caro.
O presidente da paranaense Copel, Rubens Ghilardi, conta que a empresa de distribuição do grupo ainda não sentiu os impactos de Itaipu, apesar de mais de 20% de sua energia contratada vir de Itaipu. Ghilardi explica que, mesmo com a fatura da energia de Itaipu em dólar, vale, para pagamento, a cotação do dia do vencimento. Isso significa que não necessariamente a empresa vai pagar mais caro. O próximo vencimento da Copel que pode ser influenciado pelo dólar mais alto acontece na quarta-feira. Além disso, o presidente da companhia lembra que esse custo extra entra em uma conta contábil que é atualizada pela Selic e no reajuste anual das tarifas é repassado para o consumidor. Logo existe um impacto financeiro nas empresas, mas não econômico.
O vice-presidente de operações do grupo Rede, Sidney Simonaggio, lembra que a questão acaba sendo só mais um fator de pressão sobre o caixa das companhias distribuidoras do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, obrigadas a comprar energia de Itaipu. Um diretor de outra empresa distribuidora do Sudeste, mas que não quis se identificar, diz que o problema, entretanto, afeta algumas empresas que têm pouco caixa. Isso porque a conta a pagar aumenta e a empresa precisa ir buscar capital de giro no mercado, em um momento que as linhas de financiamento estão bem mais caras.
O ex-presidente da Eletropaulo e agora consultor, Eduardo José Bernini, diz que o primeiro impacto com a subida do dólar é o descolamento do fluxo de caixa, mas ele lembra que as distribuidoras em geral têm uma boa situação. Os balanços do segundo trimestre das distribuidoras com capital aberto mostram a AES Sul e a CEEE, do Rio Grande do Sul, com caixas mais apertados.
Há outras empresas, entretanto, que tiveram seu último reajuste feito com base em um dólar a R$ 2,00. Caso da Bandeirante Energia que teve a tarifa reajustada no fim do ano passado e se beneficiou da queda durante o primeiro semestre. Isso aconteceu porque ela recebeu mais dos consumidores, enquanto desembolsou menos para Itaipu porque o dólar caiu. Cerca de 30% da energia que é distribuída pela empresa é proveniente de Itaipu.
A energia de Itaipu custa hoje US$ 22,75 e, segundo informações da assessoria de imprensa da geradora, Eletropaulo, Cemig, CPFL e Light são as distribuidoras que recebem a maior parte da energia.