Título: É a crise que vai conduzir Serra à disputa de 2010, diz Lembo
Autor: Felício, César
Fonte: Valor Econômico, 13/10/2008, Política, p. A6

Integrante da Executiva estadual do DEM, antecessor do governador paulista José Serra (PSDB) e sucessor de Geraldo Alckmin (PSDB), o ex-governador Claudio Lembo retirou-se do primeiro plano da articulação política com o fim de seu mandato. Mas está em permanente contato com dois pólos do partido: o ex-vice-presidente e senador Marco Maciel (PE), um dos fundadores do PFL, a antiga denominação do partido, e o prefeito de São Paulo e candidato à reeleição, Gilberto Kassab, que, caso seja eleito, se tornará a principal expressão eleitoral do partido. Lembo: "Se esta crise não estivesse acontecendo, é provável que o Lula conduzisse a sua própria sucessão"

Na quinta-feira, o ex-governador preparava um artigo sobre a crise financeira internacional, um tema que espera ver colocado em primeiro plano pela oposição ao governo Luiz Inácio Lula da Silva. Na visão de Lembo, o processo eleitoral faz com que a repercussão política da crise no Brasil seja, por ora, muito pequena, o que interessa ao governo federal. A seguir, a entrevista, concedida, por telefone, ao Valor:

Valor: O que o resultado das urnas pode projetar para 2010?

Claudio Lembo: Vamos considerar, para efeito de raciocínio que o Kassab se reeleja. O Serra evidentemente fica fortalecido para concorrer à Presidência, sobretudo se o candidato apoiado pelo (governador de Minas Gerais) Aécio Neves perder em Belo Horizonte. Como já foi dito antes, o Serra não segue o manual tradicional da política, mas tudo acaba dando certo. A manobra que ele fez em São Paulo foi um sinal de muita frieza e coragem, porque foi perigosa. Ele poderia ter enfrentado o Geraldo Alckmin na convenção do partido, mas preferiu deixar o seu campo com duas candidaturas. Avaliou que as conseqüências de uma divisão na convenção seriam muito fortes e que Geraldo poderia morrer na urna. Mas um fator muito mais alto sobressai agora, que é o da crise econômica. A crise vai conduzir o Serra a ser candidato à Presidência. E a reeleição de Kassab tornará a coligação entre o PSDB e o DEM inevitável.

Valor: O senhor acha que a eleição presidencial de 2010 será pautada pela crise econômica?

Lembo: Eu tenho absoluta certeza. A crise vai pautar a sucessão de Lula. Esta crise terá longa duração, segundo opinam alguns especialistas. Chegam a falar em dez anos e projetam que o horizonte vai começar a desanuviar lá por 2012. O eleitorado vai buscar alguém que transmita confiança sobre como lidar com o país em uma crise econômica. Eu vejo em Serra este perfil. Do outro lado, no PT, eu não enxergo alguém que possa ocupar este papel.

Valor: O Serra poderia surgir como uma espécie de homem providencial?

Lembo: Isso. Trata-se de um economista em um momento em que a economia estará em primeiro plano. Veja, se esta crise não estivesse acontecendo, é provável que o Lula conduzisse a sua própria sucessão. Diante desta probabilidade, possivelmente o Serra iria se voltar para a sucessão estadual e o espaço da candidatura de oposição seria ocupado por outra liderança. Com este cenário novo, a candidatura dele torna-se natural.

Valor: Mas no momento a oposição ao governo federal permanece voltada para as disputas municipais...

Lembo: A oposição precisa se voltar para o que está acontecendo na economia, o quanto antes possível. Mas com cuidado. A crítica ao governo federal não pode gerar um processo que agrave a crise econômica. Não se pode abrir espaço para uma acusação de atitude anti-patriótica. Porque o governo poderá fazer esta acusação a qualquer um que queira trazer este tema para debate. Eles estão fazendo de tudo para que este assunto não seja discutido. É nosso papel trazer esta discussão para o primeiro plano. No caso de Serra, o cuidado deve ser maior ainda. Pessoalmente considero que não é a hora de o Serra falar.

Valor: Caso o Serra dispute a Presidência, isto abre espaço para o DEM concorrer ao governo estadual?

Lembo: Não creio que o DEM entre na sucessão estadual. No DEM o único nome com densidade eleitoral seria o Kassab, e ele é um homem de bom senso, que sabe aguardar sua hora. O outro nome de que dispomos, o Guilherme Afif Domingos, está mais talhado para o Senado. O governo de São Paulo ainda é uma possibilidade tucana. Eles têm mais nomes que nós.

Valor: O ex-governador Geraldo Alckmin pode jogar que papel na próxima eleição?

Lembo: Ele teve uma votação expressiva, um resultado grande, acima do esperado, mas sua derrota faz com que outros nomes se fortaleçam no PSDB.

Valor: Na condição de vice-governador, Alberto Goldman seria um nome natural?

Lembo: O que você tem que levar em consideração é a presença de Aloysio Nunes Ferreira na Secretaria da Casa Civil.

Valor: É muito provável que a próxima pesquisa para o governo mostre Alckmin e Kassab bem posicionados, em função da campanha deste ano. Isto não os torna nomes a ser considerados?

Lembo: As eleições de 2010 estão muito distantes e dois anos é tempo mais que suficiente para construir um nome, como a história eleitoral recente prova.

Valor: Qual a sua impressão sobre o resultado da eleição no primeiro turno?

Lembo: Três eleições me chamaram a atenção, aqui no Estado: São Paulo, São Bernardo do Campo e Ribeirão Preto. Surpreendeu-me muito, e agradavelmente, o Kassab ter terminado em primeiro lugar. Acho que isto é um sinal de que a rejeição a Lula em São Paulo é maior do que se supunha. O Lula esteve em São Paulo várias vezes, esteve em São Bernardo várias vezes, subiu em palanque, fez de tudo, a Marta ficou em segundo na capital e o (ex-ministro do Trabalho e da Previdência) Luiz Marinho não fechou a eleição no primeiro turno. Isto me surpreende mais do que São Paulo.

Valor: Mas a eleição em São Bernardo do Campo tem peso estratégico para 2010?

Lembo: Muito. São Bernardo é o berço do PT, é a residência do presidente, é um grande símbolo. E o esforço que o Lula fez lá foi extraordinário. Se o Orlando Morando (PSDB) ganhar lá, o que ainda é pouco provável, seria um sinal notável, um indicativo muito forte que cresce o sentimento de rejeição a Lula e ao PT. Mas quero chamar a atenção para a eleição em Ribeirão Preto, onde Dárcy Veras (DEM) ganhou no primeiro turno. Ela é um símbolo dentro do partido, é a nossa Lulinha, no sentido de ter uma origem humilde, ter sido bóia fria, ter vindo de baixo.

Valor: Como se explica a eleição dela?

Lembo: A Dárcy tem perfil popular, é outro estilo de fazer política. Antes desta eleição, ela recolhia restos de verdura no mercado, fazia uma sopa e distribuía para os carentes. Eu, quando governador, fui lá tomar esta sopa. Ela vai dar um tom popular para o partido. É uma força da natureza.

Valor: Caso se eleja, Kassab governará um eleitorado superior à soma dos outros 494 municípios conquistados pelo DEM. Que tipo de impacto isto terá no partido?

Lembo: Ele não irá para um primeiro plano, não deve assumir a Presidência do partido ou coisa parecida, mas será cada vez mais ouvido. O que ouço de lideranças do DEM de outros Estados é que a vitória do Kassab aqui compensaria a diminuição do partido em suas bases tradicionais. Se o Kassab não ganhar, o DEM ficará em uma situação muito delicada. Deixará de ser um partido de grande porte para se tornar um partido médio. Muda de patamar. O que ainda o salvaria seria o tempo na televisão em 2010, que é regulado pelas bancadas no ano anterior. Mas esta seria apenas uma sobrevida.