Título: Se receita cair, governo pode cortar gastos, diz Lula
Autor: Agostine, Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 22/10/2008, Brasil, p. A4

Depois de reiteradas afirmações de que o governo federal não diminuirá o ritmo de investimentos no país com a crise financeira internacional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que não quer "vender ilusão" e assumiu que poderá haver contingenciamento de recursos nos ministérios. Ricardo Stuckert/PR Lula , durante discurso em evento da SBPC: "Vamos sofrer menos que os outros países caso haja uma recessão"

No dia seguinte à reunião com o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central e dirigentes da Caixa Econômica Federal, BNDES e Banco do Brasil, Lula mostrou-se otimista, mas não deixou de ponderar que o país pode sofrer reflexos da crise. "Não posso assumir um compromisso com vocês de que se houver uma crise econômica que abale o Brasil que a gente vai manter todo o dinheiro de todos os ministérios, igual como está...", disse o presidente. "Até porque se a União arrecadar menos, vai ter menos dinheiro para todo mundo", discursou ontem, ao participar da cerimônia de comemoração aos 60 anos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em São Paulo.

À platéia de pesquisadores, Lula afirmou que a crise "pode chegar ao Brasil muito mais leve do que chegou aos países de origem". O presidente continua apostando no fortalecimento do mercado interno e disse acreditar que a diversificação da balança comercial brasileira permite ao Brasil "menos dependência" em relação aos países ricos. "Dá uma certa garantia que vamos sofrer menos que os outros países caso haja uma recessão".

No discurso, improvisado, Lula analisou que a crise financeira ajudou a resgatar o papel do Estado sobre o mercado financeiro. "O coração do regime capitalista começa a ter um gostinho pelo papel do Estado, que esteve desmoralizado durante os últimos 30 anos". O presidente comparou o papel do Estado à figura da família e agradou à platéia de intelectuais: "Os nosso filhos quando têm 18 anos não querem mais ficar conosco. Dizem que somos carolas, uma série de coisas. Quando o filho adolescente vai atrás do pai? Quando está sem dinheiro, doente. O mercado que poderia resolver tudo, e nos últimos 30 anos ditou regras, no primeiro fracasso a quem recorre? Ao paizão, que é o Estado."

Lula considera correta a ajuda dos governos aos bancos, mas defende que o Estado ajude as instituições financeiras comprando ações delas, e não com o direcionamento de recursos. "Isso permite que o Estado volte a ter um papel de influência sobre o sistema financeiro internacional, que não tinha nenhum controle ", completou.

Os comentários sobre a crise ocuparam um terço do discurso de quase meia hora de Lula. Aos pesquisadores, em sua maioria vinculados a universidades e fundações públicas, ele disse que pretende deixar como legado a "mudança no padrão de relacionamento do governo com a sociedade".

Ao lado do ministro da Educação, Fernando Haddad, o presidente criticou greves de professores e disse que isso prejudica a imagem dos servidores públicos e fortalece a do governador. "Sempre discordei de greve de professor na área de ensino fundamental. Eu achava que aquela greve de 80 dias, de 90 dias era um desastre. Do ponto de vista político - já que você não estava lidando com produto, mas com ser humano -, o desgaste pior para um governador não é quando você pára", discursou. "O desgaste maior é você dar aula e o aluno levar carta para o pai dizendo "que estou trabalhando muito e não estou ganhando o suficiente". Na hora em que pára, o governador ganha a parada."

Lula, entretanto, não fez menção à greve de policiais civis em São Paulo, que terminou em confronto com a Polícia Militar. Sobre as greves, disse: "Isso eu discutia muito quando era presidente do sindicato, agora não me cabe decidir, cabe apenas tratar como elas são."