Título: Vicunha abandona pólo têxtil do Nordeste
Autor: Vieira, André; Mandl, Carolina
Fonte: Valor Econômico, 22/10/2008, Empresas, p. B7
A Vicunha abandonou o plano de fazer parte dos projetos petroquímicos para produção de insumos à indústria têxtil de Pernambuco. Com a saída do grupo controlado pela família Steinbruch, recaiu sobre a Petrobras, única acionista remanescente do empreendimento, o destino sobre a criação de uma indústria têxtil integrada no Nordeste, cujos investimentos podem chegar quase a US$ 1 bilhão.
A Vicunha, que controla a Companhia Integrada Têxtil do Nordeste (Citene), decidiu vender por R$ 31,2 milhões todas as suas participações acionárias nos projetos petroquímicos à Petroquisa, subsidiária da Petrobras.
No acordo de venda, a Citene se desfez da metade do controle da PetroquímicaSuape - que produzirá por ano 640 mil toneladas de PTA, um insumo petroquímico - além de alienar os 60% que detinha na Companhia Integrada Têxtil de Pernambuco (Citepe), que fabricará 140 mil toneladas de polímeros e filamentos de poliéster por ano, insumos para a indústria têxtil.
Com o abandono da Vicunha e a participação da Petrobras sozinha nos projetos, a fábrica da Citepe, um investimento estimado em US$ 350 milhões, é a que corre o maior risco de ficar apena no papel, segundo disseram fontes próximas ao negócio.
As obras da fábrica da Citepe nem sequer começaram. Segundo a companhia, o processo de contratação da terraplenagem se iniciará em breve. A expectativa é que ele comece em dezembro. Inicialmente, a fábrica iria operar no segundo semestre de 2007, mas agora trabalha-se oficialmente com o primeiro semestre de 2010. A saída da Vicunha dificulta a operação da unidade fabril, uma vez que ela era a principal interessada em assegurar o fornecimento de insumos para sua indústria têxtil.
No caso da PetroquímicaSuape, o projeto deve sair porque está mais adiantado, com as obras de terraplenagem em curso, garantiram fontes. As máquinas, ao contrário do que ocorre com a Citepe, também foram encomendadas. A PetroquímicaSuape produzirá insumos não só para a indústria têxtil mas também para indústria de resinas PET, como a italiana Mossi & Ghisolfi (M&G), que já possui unidade em Pernambuco, atraída pelos incentivos fiscais oferecidos pelo governo estadual.
A Vicunha não comentou oficialmente a razão de sua desistência. "A Vicunha prefere se manifestar apenas depois de a Petrobras falar sobre o assunto", informou a porta-voz do grupo, Christiane Novas. A Petrobras, por sua vez, também não quis se pronunciar sobre o futuro do projeto depois das mudanças societárias.
Segundo apurou o Valor, o grupo Vicunha teria optado em abandonar o plano na hora em que era exigido a maior parte do desembolso dos investimentos para a construção das fábricas. A Vicunha teria de aportar mais de US$ 500 milhões em todo o projeto, um valor que tornou-se excessivamente pesado para o grupo nos últimos tempos devido às condições financeiras adversas.
O plano original era atrair mais investidores à sociedade liderada pela Vicunha de modo a dividir a participação de 60% na Citepe à metade, o que reduziria a necessidade de aportes financeiros. No meio do caminho, a Vicunha perdeu outros dois sócios, a Polienka e a FIT, que tinham, cada uma, 30% do negócio. Para financiar a operação, a Vicunha chegou a pedir um empréstimo de R$ 240 milhões ao Banco do Nordeste, mas, diante das alterações societárias, a liberação dos recursos não ocorreu.
Um dos nomes cogitados para compor a sociedade era o da M&G, mas a companhia italiana e a Petrobras não chegaram a um entendimento sobre a composição acionária do projeto. A Petrobras quer ser a maior acionista do projeto, objetivo que também é o da M&G. A Odebrecht é outra que negocia uma participação minoritária no projeto. Procurado, o grupo afirmou que nada está definido.
Na tentativa de atrair investidores estrangeiros, a Petrobras busca convencer a Reliance, o maior grupo privado da Índia, com vendas superiores a US$ 35 bilhões, a participar do projeto. O grupo chegou a assinar um memorando de entendimento com a estatal. Em agosto, o diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, disse que a expectativa era de que o acordo com os indianos saísse ainda em setembro, o que não ocorreu. Em meio à crise internacional, a Reliance teria pedido mais tempo para pensar sobre seu envolvimento no projeto. O governo de Pernambuco decidiu enviar uma missão especial à Índia em novembro para conhecer a unidade da empresa indiana e tentar negociar o ingresso da Reliance no projeto.