Título: Taxas vão a 150% do CDI para empresas
Autor: Silva Júnior, Altamiro
Fonte: Valor Econômico, 22/10/2008, Finanças, p. C10
Com a escassez de crédito bancário, as empresas estão tentando buscar recursos a qualquer custo no mercado de capitais. As taxas foram para as alturas e os prazos caíram, em alguns casos, para apenas 90 dias. As emissões de notas promissórias, papéis de curto prazo, são as mais procuradas pelas companhias, por serem de rápida estruturação. Apenas nesta semana, três novas operações estão no mercado. Somam R$ 730 milhões e prometem rentabilidade que beira os 150% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI).
As debêntures também atraem novas empresas. Ontem, a CPFL pediu autorização para captar R$ 100 milhões. As taxas do mercado, porém, estão na casa dos 130% do CDI e os prazos caíram para 3 anos, em média. Em meio ao estresse causado pela crise financeira, os investidores, como fundos de pensão e gestoras de recursos, continuam exigindo alta rentabilidade para comprar os papéis privados.
Há pouco mais de um ano, era raro uma emissão de debêntures superar 110% do CDI. Em alguns casos, com boa classificação de risco, as emissões ficavam na casa dos 104% do CDI, para papéis de cinco ou sete anos. Nas notas, a CPFL Energia, por exemplo, captou R$ 450 milhões em maio de 2007 pagando apenas 102% do CDI.
A Eliane, fabricante de cerâmicas de Santa Catarina, acaba de pedir autorização na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para emitir R$ 40 milhões em notas promissórias. A remuneração oferecida é de 140% do CDI para papéis com prazo de 180 dias.
Já a Alupar Investimento, que é dona de usinas hidrelétricas e linhas de transmissão pelo país, também acaba de entrar com pedido para captar R$ 140 milhões, com taxa de 148% do CDI, a mais alta do mercado até agora. O papel tem prazo de 90 dias. A empresa vai usar o dinheiro para pagar uma emissão anterior de notas.
A Vivo Participações quer captar R$ 550 milhões, também por meio de notas promissórias, com prazo de 180 dias. O pedido entrou ontem na CVM e os papéis têm garantia firme de colocação, ou seja, se não houver comprador, os bancos coordenadores da oferta ficam com o papel. BB Investimentos e o HSBC são os coordenadores. O papel da Vivo paga taxa de 115% do CDI, valor relativamente baixo, considerando o cenário atual. Mesmo assim, é maior que a da emissão anterior da Vivo, em julho, quando colocou R$ 500 milhões em notas de 360 dias e taxa de 106,5% do CDI.
No mercado de debêntures, as operações começaram a voltar depois de dois meses de quase nenhuma emissão. Ontem, a Rossi Residencial anunciou o encerramento de uma operação de R$ 40 milhões. A debênture de 3 anos tem remuneração de 125% do CDI, uma das mais altas já feitas este ano. O papel também tinha garantia firme de colocação. O Banco Votorantim, o coordenador líder, foi o único comprador. O Valor procurou a empresa e o banco, que não se pronunciaram.
A garantia firme de colocação é um dos fatores essenciais para o sucesso de uma oferta pública hoje. A Duke Energy Geração Paranapanema tentou emitir papéis no início do ano sem essa cláusula e acabou adiando a operação. Na segunda tentativa, com a garantia dos bancos, conseguiu colocar R$ 341 milhões em duas tranches, uma delas com rentabilidade em torno de 115% do CDI. A operação foi aprovada pela CVM na segunda-feira.
Além da maior aversão ao risco, com os investidores preferindo comprar títulos públicos, as empresas emissoras de debêntures e notas promissórias continuam enfrentando a concorrência dos Certificados de Depósito Bancário (CDB). Bancos grandes, de primeira linha, pagavam ontem em torno de 104% do CDI para papéis de seis meses.
"O cenário não mudou. Empresas que estão precisando de recursos neste momento terão que pagar taxas mais altas", afirma André Schiubola, sócio da Precision Asset Management, gestora de fundos de investimento especializada em papéis privados.
Até ontem, as emissões de notas promissórias arquivadas este ano na CVM somavam R$ 16,4 bilhões, um recorde. No ano passado todo, foram R$ 10 bilhões. As emissões de debêntures somavam R$ 38 bilhões.