Título: PIB pode ter dado trimestral negativo
Autor: Neumann, Denise
Fonte: Valor Econômico, 24/10/2008, Brasil, p. A3
A crise internacional colocou um freio adicional a uma economia que já entrava em desaceleração. Na avaliação dos economistas, os efeitos da forte contenção do crédito vão aparecer, parcialmente, na produção e na demanda neste fim de ano, mas a cara mais negativa da crise vai aparecer nos indicadores do Produto Interno Bruto (PIB) do início do ano que vem. Alguns analistas já incorporam nas suas previsões, mesmo sem colocar números negativos, a possibilidade de o PIB do primeiro trimestre de 2009 registrar queda na comparação com o quarto trimestre de 2008.
"Se não destravarmos o crédito, teremos uma recessão no início de 2009", observa Júlio Sérgio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Nesta observação de Almeida, o termo recessão não implica dois trimestres consecutivos de queda do PIB, mas uma retração trimestral isolada, a primeira desde o terceiro trimestre de 2005.
O quadro de um PIB negativo no início do próximo ano considera que indústria e varejo vão encerrar este ano com estoques altos, pois muitas negociações e encomendas já estavam feitas. Nesse cenário, a reposição de encomendas será pequena. Além disso, alguns setores ligados aos investimentos não vão perder dinamismo imediatamente, pois máquinas encomendadas serão entregues, mas novos pedidos serão postergados junto com a onda atual de adiamento de novos projetos, antes anunciados.
Nas contas de Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o PIB do quarto trimestre cresce 0,4% sobre o terceiro, mas um dado negativo nas está descartado nem neste fim de ano, nem no início de 2009. "Vamos ver o efeito combinado da política monetária [elevação de juros iniciada em abril] com a contração do crédito. Mas se tivermos um dado negativo, depois volta, não será uma recessão."
O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria, avalia ser possível uma variação negativa do PIB no quarto trimestre deste ano ou no primeiro de 2009, mas não considera que esse seja o cenário mais provável. A expectativa é de uma desaceleração forte, mas não um recuo. Segundo Loyola, o investimento é que deve sofrer mais. Ele aposta em alta do PIB de 3% a 3,5% em 2009 e de mais de 5% neste ano.(Colaborou Sergio Lamucci