Título: Lula diminui sua exposição em favor dos aliados no segundo turno
Autor: Romero, Cristiano
Fonte: Valor Econômico, 24/10/2008, Política, p. A8

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se envolveu pouco nas campanhas do segundo turno das eleições municipais. Limitou seus movimentos a dois candidatos - Marta Suplicy (PT), em São Paulo, e Luiz Marinho (PT), em São Bernardo do Campo (SP) - e, mesmo assim, de forma discreta. Nas quatro semanas da campanha de Marta para o segundo turno, esteve presente em apenas dois eventos. Alan Marques/Folha Imagem

Lula: presidente só se movimentou em favor de Marta e de Marinho, em SP

Considerando toda a campanha da candidata petista, Lula subiu quatro vezes em seu palanque. No último evento que prestigiou, só concordou em aparecer depois de muita insistência do seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, que solicitou férias do cargo para se juntar ao grupo de Marta a duas semanas da realização do pleito.

A estratégia do presidente mudou do primeiro para o segundo turno das eleições. No primeiro, Lula participou de forma mais intensa, principalmente, da campanha dos petistas, o que criou animosidades com os candidatos dos outros partidos aliados ao governo. As queixas foram inicialmente vocalizadas pelo ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira, da cota do PMDB no ministério.

Logo após o fim do primeiro turno, Geddel solicitou audiência ao presidente para reclamar do comportamento do PT na eleição e para pedir neutralidade na disputa do segundo turno em Salvador, entre o candidato do PMDB, o prefeito João Henrique, e o postulante do PT, deputado Walter Pinheiro (BA). No dia 8, dois dias depois do primeiro turno das eleições, a cúpula do PMDB jantou com o presidente, no Palácio da Alvorada, para reforçar a iniciativa de Geddel.

Durante o encontro, Lula se comprometeu a não se intrometer nas campanhas de prefeituras onde houvesse dois candidatos da base aliada, como em Salvador. Aproveitou para mostrar ceticismo em relação às possibilidades de Marta derrotar Gilberto Kassab (DEM) em São Paulo. Citando pesquisas "internas", o presidente disse que havia uma "onda pró-Kassab" na capital paulista e que seria difícil revertê-la. Ainda assim, avisou aos pemedebistas que, como o adversário de Marta não era um aliado, ele se dedicaria à campanha.

Apesar da promessa, o presidente pouco se moveu para ajudar a candidata do PT, que contratou seu marqueteiro - João Santana - e procurou colar sua imagem à de Lula. A ex-prefeita tentou tirar proveito da elevada popularidade do presidente - 80% de aprovação, segundo a última pesquisa do Ibope -, imaginando que ele lhe transferiria votos automaticamente. Ironicamente, há quatro anos, quando perdeu a disputa pela reeleição para José Serra (PSDB), Marta atribuiu a derrota aos efeitos "negativos" da política econômica do governo Lula em São Paulo.

"Eleição municipal é movida por questões locais. O ambiente nacional ajuda, mas não decide", disse ao Valor um assessor do presidente, alegando que uma maior participação de Lula na campanha de Marta não teria abortado a onda "pró-Kassab". "Uma vitória da Marta seria, claro, o melhor resultado, mas o presidente não se sente derrotado com o fracasso dela", sustentou um ministro.

Quando Gilberto Carvalho decidiu participar da campanha da ex-prefeita, o gesto foi visto como um esforço de Lula para ajudar Marta. Na verdade, segundo informa um assessor direto do presidente, Carvalho agiu por conta própria. Ele aproveitou viagem de uma semana de Lula ao exterior para pedir férias e se deslocar para São Paulo. Sua participação na campanha é um primeiro passo dentro de um projeto pessoal mais ambicioso: eleger-se presidente do PT.

Mesmo Carvalho, amigo dileto de Lula e seu chefe de gabinete desde 1º de janeiro de 2003, teve dificuldade para convencê-lo a participar de um evento da campanha de Marta. A candidata queria ter Lula ao seu lado no dia 18, durante ato na Casa de Portugal, no centro de São Paulo. O presidente tinha regressado do exterior um dia antes e, alegando cansaço, pediu para não tomar parte de eventos naquele fim de semana. Gilberto, segundo um colaborador do presidente, telefonou para Lula e praticamente o obrigou a ir à capital paulista no dia seguinte.

Não foi só Marta Suplicy que sentiu falta de Lula na corrida eleitoral do segundo turno. Em Porto Alegre, a petista Maria do Rosário, que também procurou atrelar sua imagem à do presidente, e, a exemplo de Marta, também não teve sucesso. Lula deixou para participar de sua campanha a 72 horas do final do segundo turno, com uma mensagem gravada no programa eleitoral da candidata petista, Maria do Rosário. Ao longo de todo segundo turno, Maria do Rosário se queixou, em entrevistas, da ausência do presidente. Declarou que, se ele tivesse aparecido, a teria ajudado.

Durante a campanha, Lula justificou a ausência alegando que, lá, o outro candidato - o prefeito José Fogaça (PMDB) - é de um partido aliado. No Palácio do Planalto, assessores do presidente montaram um mapa de acompanhamento das eleições e constataram que, das 30 cidades onde haverá segundo turno, em 17 os dois candidatos são da base governista.

A regra de ouro de Lula não valeu, no entanto, para a disputa no Rio de Janeiro. Na capital fluminense, os dois candidatos são de partidos aliados ao governo - Eduardo Paes, do PMDB, e Fernando Gabeira, do PV -, mas, embora não tenha participado de atos de campanha, o presidente tirou fotografias ao lado do pemedebista e gravou participação em seu programa de TV, livre dos constrangimentos que teve no primeiro turno, quando outro aliado, Marcelo Crivella, disputava. De Gabeira, apoiado pela oposição, o presidente manteve distância.