Título: Empresas perdem meio PIB
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Fonte: Valor Econômico, 27/10/2008, Investimentos, p. D1

O equivalente à metade da riqueza produzida no país foi para o ralo em menos de cinco meses. Juntas, as companhias brasileiras com ações negociadas em bolsa perderam quase R$ 1,3 trilhão desde maio, quando a euforia ainda reinava no país que acabara de receber o "grau de investimento" das agências de classificação de risco.

Naquela época, agora irremediavelmente distante, o valor de mercado das empresas chegou a R$ 2,57 trilhões, ou cerca de 98% do Produto Interno Bruto (PIB), um marco histórico para um país em que o mercado de capitais só ganhou relevância nos últimos quatro anos. Na quinta-feira passada, já no cenário de crise mundial, a relação havia caído para 47,3%, com um valor de mercado de R$ 1,28 trilhão.

A relação entre o valor das empresas e o PIB, que é a soma da riqueza gerada pelos diversos setores da economia, é uma maneira de medir a pujança do mercado de capitais. Nos Estados Unidos, esse indicador esteve acima 100% por muitos anos, até ser derrubado para os 75% atuais.

Os investidores gostam de usar esse número para saber qual a situação do mercado: um indicador acima de 100% mostraria uma valorização excessiva das ações, enquanto 50% - que está perto da média histórica do mercado americano, segundo o site Investopedia - seria um sinal de pechincha.

Mas decidir se é esta a hora de comprar é outra história. "A queda do mercado brasileiro, apesar de expressiva, ainda não pode ser considerada exagerada", afirma o professor William Eid Jr., da Fundação Getúlio Vargas (FGV). "Talvez as cotações anteriores fossem otimistas demais", complementa. Segundo ele, a avaliação sobre a existência de um eventual exagero só poderá ser feita mais tarde, quando a poeira baixar.

Baratos ou não, os papéis brasileiros estão longe da realidade das companhias de capital aberto, que nunca venderam ou lucraram tanto na história. Muitas empresas "sólidas" não valem na bolsa nem seu patrimônio. Entre maio e outubro, a relação entre o valor de mercado e o patrimônio líquido das companhias caiu de 3,7 vezes para 1,8 vez.

O fato é que o mercado costuma antecipar boas e más notícias, e os investidores não estão nem um pouco otimistas com as perspectivas da economia mundial. Até que ponto a crise vai contaminar o Brasil ainda é uma incógnita.

José Francisco Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, acredita que o pico da bolsa, em maio deste ano, foi irreal. "Vimos uma valorização excessiva, que não tinha como se sustentar." Para ele, o mercado só começou a cair de forma acentuada quando os investidores perceberam que o país seria prejudicado pela crise global e que cresceria menos que o esperado a partir de 2009.

As principais questões dos investidores no momento referem-se exatamente ao cenário das empresas para as atividades e os resultados nos próximos trimestres. Mas as companhias que já divulgaram os balanços do período de julho a setembro pouco contribuíram para sanar essas dúvidas.

O empresário tem reagido, em geral, de maneira conservadora, contendo investimentos e adiando projetos de expansão. O setor de papel e celulose, a despeito da perda bilionária da Aracruz com derivativos, paralisou linhas de produção, por conta do elevado estoque internacional, e adiou investimentos em aumento de capacidade.

A fabricante de cosméticos Natura vinha conseguindo melhorar suas margens, conforme prometido aos investidores. Mas tudo que David Uba, vice-presidente de finanças, comprometeu-se a respeito do futuro - de curtíssimo prazo - foi a garantia de que o piso projetado para o ano será entregue.

A promessa de apresentar, em 2008, um lucro líquido antes de juros, impostos, depreciação e amortização (lajida) equivalente a, no mínimo, 23% da receita líquida estava sendo cumprida com folga. A companhia, que teve aumento de 21,4% na receita líquida do terceiro trimestre, para R$ 868 milhões, teve margem de 27,3%.

A Natura tem 12% dos custos atrelados à moeda estrangeira. Não é difícil projetar, portanto, que a disparada do dólar pode jogar por água abaixo o esforço de racionalização de custos feito pela companhia no último ano. Ainda assim, Uba não quer falar em aumentos.

Repassar a alta dos custos para os preços dos produtos dependerá de diversas outras questões - todas ainda sem respostas. Segundo ele, antes dessa decisão, a Natura avaliará o comportamento dos consumidores e dos concorrentes, sem contar a definição da taxa de câmbio, que vem mostrando grande instabilidade. Assim, a manutenção de uma margem líquida superior a 19% - apresentada no terceiro trimestre - não está segura.

A companhia de ferrovias ALL mantém o otimismo não apenas com este ano, como também com 2009. "A ALL está nos trilhos", enfatizou Bernardo Hees, presidente da empresa. Ele ressaltou que a companhia está na melhor situação financeira de sua história, que já acumula 12 anos. Fechou setembro com um caixa de R$ 2,5 bilhões, para uma dívida total de R$ 5,2 bilhões, indexada em CDI e TJLP e com prazo médio de vencimento de cinco anos.

Para 2009, mantém a expectativa de investir R$ 700 milhões em expansão e disse que não sabe que cenário ruim poderia levá-lo a desistir desses projetos. O executivo enfatizou que a companhia está acostumada a crescer mesmo na crise, pois o empresário tende a buscar corte de custos e, com isso, troca transporte rodoviário por ferroviário.

Apesar das estimativas para o próximo ano, Hees admite que para 2010 está mais difícil traçar cenários. "A gente cresce de qualquer jeito, mas é melhor expandir junto com nossos clientes", afirmou ele, lembrando que hoje existem cerca de 14 projetos de aumento de capacidade de grandes usuários de sua malha que beneficiarão a companhia.

Embora nem sempre consigam dar respostas objetivas sobre o futuro, as companhias correm para falar sobre a situação financeira. Temas antes de pouca importância, dada a grande liquidez financeira internacional, como perfil de dívida, caixa e financiamentos, galgaram diversos degraus na escala de prioridades. Não por acaso, quem está bem corre para mostrar.

A Vale, por exemplo, destacou no relatório de desempenho que tem à disposição linhas de crédito de longo prazo, com vencimento médio de dez anos, de quase US$ 10 bilhões, concedidas por instituições governamentais de crédito do Brasil e Japão. Esses recursos se destinam ao financiamento de projetos. Ainda possui linhas de crédito rotativo de US$ 1,9 bilhão, com vencimento médio de três anos, "que proporcionam um colchão de liquidez".

Em relação aos dados financeiros, a Natura julga-se numa situação confortável. Tem R$ 340 milhões em caixa, para uma dívida de R$ 520 milhões, com prazo médio de 15 meses.

O fabricante de máquinas Romi ainda não sentiu reflexos da crise em sua carteira de pedidos e manteve as metas para o ano. No entanto, Livaldo Aguiar dos Santos, presidente, sabe que estamos "no olho do furacão": "O que era normal há algumas semanas já não é mais".