Título: Montadoras estimam seis meses de queda nas vendas internas
Autor: Olmos, Marli; Manechini, Guilherme
Fonte: Valor Econômico, 28/10/2008, Empresas, p. B9
O mercado de veículos no Brasil vai passar pelo menos seis meses em processo de queda, segundo previsões dos dirigentes do setor. Para os próximos três meses, o presidente da Renault do Brasil, Jérôme Stoll, prevê já uma queda de 10% a 15%. Laurent Tasté, presidente da Peugeot, estima que os primeiros três meses de 2009 serão de desaquecimento. GM e Honda já tiveram que parar a produção. Davilym Dourado/valor Para Stoll, presidente da Renault, o importante é controlar o estoque para que não sobrem muitos veículos nos pátios
Por falta de crédito, as locadoras de veículos deixaram de comprar em outubro, segundo o vice-presidente da General Motors, José Carlos Pinheiro Neto. Isso levou a montadora a ter de paralisar a produção na sua fábrica de Gravataí (RS), durante seis dias.
A fábrica de Gravataí produz as linhas Celta e Prisma, as mais procuradas pelas locadoras. Segundo Pinheiro Neto, foram duas paradas de três dias cada para poder ajustar a produção à demanda.
Também a General Motors reduziu de 90 mil para 80 mil a expectativa de exportação por conta de queda de encomendas dos mercados vizinhos, atingidos pela crise.
A Honda paralisou, na semana passada, a fábrica de automóveis, dando férias coletivas aos funcionários. A medida foi semelhante a da divisão de motocicletas, na Zona Franca de Manaus (AM). Kazuo Nozawa, vice-presidente da Honda na América do Sul, diz que se tratava de uma parada programada Mesmo assim, a montadora declarou ter revisado suas projeções para este ano e ano que vem. O próximo passo, depois das férias coletivas de uma semana, será reduzir de 650 para 550 o número de unidades produzidas em Sumaré, no interior de São Paulo, o que resultará em 2 mil veículos a menos por mês.
Outro dado divulgado por Nozawa é a perspectiva para o mercado nacional neste ano, diminuindo de 2,9 milhões para 2,7 milhões. No total da Honda, a projeção é de encerrar o ano com 125 mil automóveis fabricados, ante previsão anterior, de 128 mil. Todos os executivos do setor começaram a rever para baixo as previsões de mercado.
Segundo o diretor executivo da Ford para a América do Sul, David Schoch, o momento é de análise do mercado. Mas outubro já demonstrou sinais de desaceleração. "Com base nesses dados, vamos nos planejar para o próximo ano", disse.
Embora o discurso de todos os dirigentes da indústria automobilística seja para amenizar a crise, os fatos mostram não apenas uma desaceleração da atividade como, principalmente, uma série de medidas para tentar ajustar a produção à queda de demanda atual.
Segundo Tasté, executivo da Peugeot, a produção no primeiro trimestre de 2009 será um pouco inferior ao deste ano. Apesar da estimativa de uma retração do mercado no início do ano que vem, o executivo ressaltou que a crise no mercado nacional é mais psicológica do que real. "Nossa preocupação é com o custo do crédito", disse.
Tasté afirmou que a montadora pode tomar medidas de "precaução" na fábrica de Porto Real, no Rio de Janeiro. Estas decisões, de acordo com ele, são no sentido de reduzir projeções de crescimento, conversar com os fornecedores e ajustar as férias dos funcionários.
A Renault decidiu trabalhar com o sistema de banco de horas na fábrica de São José dos Pinhais (PR). Segundo Stoll, o importante é controlar o estoque para que não sobrem muitos veículos nos pátios da fábrica e da rede de concessionárias.
Pelo sistema de banco de horas as empresas conseguem flexibilidade para trabalhar mais ou dar folgas aos empregados se houver necessidade de reduzir o ritmo de produção.
"Todas as empresas estão focadas no caixa", disse Stoll, da Renault. As montadoras também estão tentando atrair os consumidores que querem financiar veículos para os seus bancos. A participação do Banco Renault nas vendas a crédito da marca aumentou de 15% para 30% nos últimos dias.
Nem todos, porém, gostam de falar em crise. O presidente da Fiat Brasil, Cledorvino Belini, conta com a força da economia brasileira. Segundo ele, a Fiat se preparou para fazer a produção da sua fábrica em Betim acompanhar um crescimento de 30%.
"Não deu; vai ficar em uns 20%", disse. Para o executivo, a desaceleração vem em bom momento, já que o setor vinha numa grande euforia. "É até conveniente haver essa ajustadinha", destacou.
O presidente da Nissan, Thomas Bresson, diz que a marca já sentiu uma queda de vendas em outubro e, por isso, decidiu aguardar mais para pôr em atividade o terceiro turno de produção na fábrica que a marca compartilha com a parceira Renault no Paraná.