Título: Lago elege o dobro de prefeitos dos Sarney
Autor: Lyra, Paulo de Tarso
Fonte: Valor Econômico, 28/10/2008, Política, p. A8
Pouco mais de 40 anos depois de assumir pela primeira e única vez como governador do Maranhão e iniciar a mais longa dinastia familiar política ainda em curso no país, o senador e ex-presidente da República José Sarney vive o momento mais delicado nessas quatro décadas de poder. As eleições municipais em seu Estado não lhe foram nada favoráveis. Do Amapá, para onde transferiu seu domicílio eleitoral há alguns anos, exatamente para continuar tendo êxito nas eleições, ele viu o grupo do governador Jackson Lago crescer de duas para 144 prefeituras em apenas quatro anos. Em São Luís, capital onde Sarney tradicionalmente não colhe bons resultados, os candidatos ligados diretamente a ele somaram, no primeiro turno, 7,68% das intenções de voto. No segundo turno, viu um ex-aliado José Castelo (PSDB), vencer a prefeitura e consolidar o palanque nacional para os tucanos em 2010. José Cruz/ABr
Sarney: participação na campanha de São Luís foi tímida devido à tradição de anti-sarneyzismo da capital que elegeu João Castelo, adversário político da família
O futuro do grupo passa não apenas pelo Maranhão, mas também por Brasília. Provavelmente ainda esse ano, o Tribunal Superior Eleitoral julgará o pedido de cassação do governador Jackson Lago por suposto abuso de poder econômico e compra de votos durante a campanha eleitoral de 2006. Se forem exitosos, ganharão fôlego, pois conseguirão tirar do cenário eleitoral seu mais forte adversário na atualidade. Outra estratégia é manter-se vivo no plano nacional. Respeitado no Senado e no Palácio do Planalto, Sarney quer permanecer influente ao ditar o ritmo da sucessão na presidência da Casa - ora como candidato, ora pleiteando o direito do PMDB à cadeira.
Assim, mantém seu capital político até 2010. Com Lula, não há chances de ruptura ou de enfraquecimento das relações. O presidente da República tem uma dívida de gratidão histórica e cumulativa com o pemedebista. Ainda em 1989, quando o então candidato do PT foi acusado de morar em um apartamento cujo aluguel era pago pelo compadre Roberto Teixeira, Sarney, no apagar das luzes de seu mandato como presidente da República, escreveu um longo artigo em defesa do petista. Na mesma época, pressionou o então diretor da Polícia Federal, Romeu Tuma, para não politizar o seqüestro do empresário Abílio Diniz.
Os dois se encontraram novamente na história recente. Em 2002, depois da deflagração do escândalo Lunus que abortou a candidatura presidencial de Roseana Sarney, o senador, convicto de que o PSDB estava por trás da imagem do dinheiro divulgada nos meios de comunicação, chamou o deputado José Dirceu (PT-SP) em sua residência em Brasília e declarou apoio à candidatura presidencial de Lula. Por fim, no auge da crise do mensalão, Sarney jamais deixou de estar ao lado do petista. "Lula gosta de conselhos, mas detesta quem adota um tom professoral. Sarney aconselha o presidente, sem arrogância e acabou angariando ainda mais simpatia com isso", disse um pemedebista próximo ao senador.
Mas Lula sai de cena em 2010. Como ele próprio diz, serão as primeiras eleições presidenciais desde a redemocratização onde não será candidato. Ninguém sabe ao certo se uma eventual presidência de Dilma Rousseff possa ser tão positiva para Sarney. Ambos se respeitam, mas travaram duros embates pelo comando do setor elétrico. Se o futuro presidente for José Serra (também levando-se em conta que ele seja o ungido pelo PSDB), aí sim, as perspectivas serão péssimas.
Mas da mesma maneira que o cenário nacional precisa ser trabalhado, Sarney voltou suas atenções para a eleição em São Luís, ainda que de forma discreta. Para não parecer que estava totalmente alheio à disputa, deixou circular que apoiaria o comunista Flávio Dino no segundo turno. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva gravou no primeiro turno mensagem de apoio ao candidato do PCdoB. Roseana Sarney apareceu no programa do pemedebista Gastão Vieira. Mas na capital, o apoio era tímido. A chamada Ilha Rebelde tem uma tradição anti-sarneyzista. Apresentar-se como apoiado por Sarney, em São Luís, é quase garantia de perda de votos.
No primeiro turno, de olho nos votos vindos do prestígio de Lula no Estado, Dino não fez muito esforço para desvincular-se totalmente da onda de boatos que o aproximavam da família Sarney. No segundo, quando o presidente afirmou que não gravaria mensagens para ninguém, o candidato do PCdoB intensificou o descolamento da imagem. "Clãs familiares funcionam de maneiras bem específicas. Uma coisa é como Sarney se movimenta no plano federal, tentando mostrar prestígio. Outra é aqui", confidenciou uma pessoa da cúpula da campanha do PCdoB no Maranhão.
A militância sarneyzista até que migrou para a campanha de Castelo no segundo turno. O tucano iniciou sua carreira política graças a Sarney. Ele era gerente de banco na agência onde o senador maranhense tinha conta. A partir daí, foi alçado à diretor do Banco da Amazônia em Belém, virou compadre de Sarney até chegar a governador biônico, no período entre 1979 e 1982. Castelo deixou o mandato antes do fim para concorrer ao Senado, mas divergiu do seu mentor, que indicou Luís Rocha para o governo maranhense. Sacramentou-se assim o rompimento.
Atores políticos dos dois lados lamentam que o Estado, que poderia ser mais pujante por conta das suas riquezas naturais e clima favorável, ainda se prenda a um maniqueísmo Sarney e anti-Sarney. "O que alimenta a oposição aqui no Maranhão é o discurso contra a família Sarney, Ele serve como um biombo contra a mediocridade. Você não precisa ter propostas para nada, você tem um eleitorado cativo", revolta-se o deputado Gastão Vieira (PMDB), "Infelizmente isso acontece. Mas ainda há um grupo que quer uma política mais aberta, mais transparente, mais clara, Temos hoje uma realidade impensável há tempos atrás", concorda o governador Jackson Lago.
O PDT tinha duas prefeituras em 2004, hoje conta com 144 prefeituras, incluindo os aliados. É praticamente o dobro dos sarneyzistas, que obtiveram vitórias em 73 municípios maranhenses. O resultado não tem expressão apenas quantitativa, mas também qualitativa. Nos principais colégios eleitorais do Estado, a família Sarney obteve êxito em apenas dois: Codó e Timon. Colheu derrotas marcantes em São Luís, Imperatriz (os dois maiores municípios do Estado e que serão comandados pelo PSDB), em Caxias e em Bacabal (vencidas pelo PDT).
Lago não arrisca prognósticos sobre seu futuro. Sabe que o jogo político é árduo. "Eles são capazes de tudo no tapetão. Eu não sei se vou concluir os meus quatro anos", diz o governador. Uma pessoa que teve acesso aos autos do processo afirmou ao Valor que a situação não é nada simples para o pedetista, pois será um julgamento envolvendo questões técnico-jurídicas mas, acima de tudo, políticas. "É o futuro de um grupo que está em jogo". Mas nem uma suposta cassação significará automaticamente vitória dos Sarney. "Depende do que o TSE decidir. Ele dirá que Roseana é a nova governadora ou vai sugerir uma nova eleição, com o segundo e terceiro mais votados no Estado em 2006: Roseana e Edson Vidigal?" questiona um atento analista da política maranhense.