Título: Governo brasileiro aposta mais em Doha do que em acordo com os EUA
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Fonte: Valor Econômico, 04/11/2008, Brasil, p. A4
O governo brasileiro está mais interessado ainda na Rodada Doha, apesar de suas dificuldades, do que num acordo de comércio com os Estados Unidos, disse ontem o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, enquanto o resto do mundo aguarda a nova orientação comercial do futuro governo em Washington. "Não vamos nos fechar a outras negociações, mas insistimos em Doha, porque achamos que é do dever de quem se preocupa com a ordem internacional, com o comércio internacional sujeito a regras, com abertura comercial mais justa." AP Photo/Keystone/ Salvatore Di Nolfi Pascal Lamy, diretor-geral da OMC: instituição quer examinar se a falta de crédito a exportação é problema de longo prazo
Para o ministro, o Brasil continua achando que a Rodada Doha, na Organização Mundial de Comércio (OMC), seria uma "base muito importante para uma negociação bilateral (depois)". No momento, uma negociação do Mercosul com os EUA está na "agenda virtual", ou seja, não existe.
O ministro insiste em apostar na Rodada Doha quando os sinais são pessimistas, como ele mesmo admitiu ontem. Há dez dias, segundo o ministro, articuladores começaram a planejar uma reunião ministerial para dezembro, para tentar fechar o acordo agrícola e industrial depois da eleição nos EUA e da eleição no Estado indiano do ministro de Comércio, Kamal Nath.
Só que, nos últimos dias, o ambiente piorou em Genebra. Uma reunião de vários embaixadores, ontem, mostrou pouco apoio à idéia de reunião ministerial. Teve embaixador falando de "suicídio", porque simplesmente não existiria tempo para um entendimento até dezembro sobre corte de tarifas e de subsídios agrícolas e industriais. "O que sei é que, pelas conversas do presidente Lula com outros chefes de Estado, há um sentimento geral de que uma conclusão positiva de Doha ajudaria a melhorar a situação criada com a crise financeira", afirmou.
Apesar da atmosfera mais pessimista em Genebra, sem saber ainda a razão precisa, Amorim disse que muito pode depender do impulso que os chefes de Estado e de governo podem dar na reunião de cúpula do dia 15, em Washington.
O Brasil propôs a participação do diretor da OMC, Pascal Lamy, na reunião, mas não recebeu resposta. "Falta muito pouco para concluir um acordo, só mesmo por muita insensatez não se conclui. Agora, sempre tem pontinhos que doem no calcanhar de um ou outro, e será necessário um impulso politico forte. Se depender de nós, virá.". Indagado se o "nós" representava o Mercosul, Amorim respondeu: "Se depender do Brasil, (o impulso) virá". (AM)