Título: Petrobras decepciona
Autor: Schüffner , Cláudia
Fonte: Valor Econômico, 13/11/2008, EU& Investimento, p. D1
Um dia depois de a Petrobras anunciar o maior lucro líquido de sua história, de R$ 10,8 bilhões no terceiro trimestre, os analistas do mercado financeiro passaram a ver com preocupação a capacidade da estatal de manter seu programa de investimentos e, ao mesmo tempo, garantir a distribuição de ganhos aos acionistas.
Com a queda nos preços internacionais do petróleo, os bancos ficaram preocupados com o aumento de custos e despesas operacionais da estatal. Houve rebaixamento nas recomendações de "compra" da ação da estatal para "neutro", como indicou o banco Credit Suisse. O Citibank considerou o resultado "desapontador".
Os papéis da Petrobras tiveram um destaque negativo na Bolsa de Valores de São Paulo com queda de dois dígitos - a ação preferencial (PN, sem direito a voto) fechou o dia a R$ 20,62, com baixa de 13,75%, e a ordinária (ON, com voto) teve recuo de 13,25%, cotada a R$ 24,94 no fim do pregão.
Diante do desempenho da Petrobras no trimestre, que teve aumento também nas despesas extras com pagamento de bônus aos empregados no dissídio coletivo, em setembro (despesas de R$ 543 milhões), o diretor financeiro da companhia, Almir Barbassa, foi cobrado por investidores em reunião realizada ontem pela Apimec em São Paulo pelos maus resultados.
"A empresa deu bônus de 80% de um salário ao funcionário, mas não deu nada ao acionista", disse um analista da Geração Futuro, que pediu mudanças nas regras para distribuição dos dividendos. Barbassa afirmou que a regra não muda - a Petrobras reparte o lucro uma vez ao ano, sempre no primeiro semestre.
A preocupação dos analistas sobre o resultado do terceiro trimestre aconteceu justamente quando o preço do petróleo bateu o recorde histórico, de US$ 147 por barril, ocorrido no período. A analista Mônica Araújo, da Ativa Corretora, destaca que a margem de lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (margem lajida), que ficou em apenas 28% no terceiro trimestre, não era observada desde 2002. Segundo ela, isso "mostra um crescimento muito forte de alguns custos e despesas, que chamam a atenção num período de queda no preço da commodity e de, conseqüentemente, menor perspectiva de crescimento da receita no curto prazo".
Em relatório do Credit Suisse, o analista Emerson Leite se diz preocupado com a deterioração da estrutura de custos da Petrobras e de lucros, afirmando que as ações da companhia são baratas com o petróleo a US$ 100 por barril, mas não ao preço de US$ 60, estando "muito caras" com o petróleo a US$ 50 ou abaixo. Segundo o banco, o valor das reservas do pré-sal "desaparece" com o preço abaixo de US$ 50, que é o ponto de equilíbrio entre receitas e despesas para a exploração dessas reservas que ficam em águas ultraprofundas. O petróleo WTI fechou ontem a US$ 56,16 o barril, queda de 5,34%.
A Petrobras está revisando o plano de investimentos para 2009, que deverá cada vez mais contemplar recursos para a exploração das reservas descobertas na camada do pré-sal. Segundo Barbassa, a expectativa é que a estatal invista pelo menos R$ 50 bilhões no ano que vem, valor praticamente igual ao previsto para este ano. Diferentemente do início da década, quando a Petrobras tinha excesso de dinheiro em caixa, a estatal mantém hoje um equilíbrio entre a geração de caixa e o programa de investimentos e distribuição de dividendos, tendo recorrido ao mercado financeiro a fim de complementar sua necessidade com um dinheiro mais barato.
Com a escassez de crédito no mercado internacional, nem a Petrobras tem conseguido captar como acontecia anteriormente. "Até setembro, captamos US$ 9,2 bilhões", afirmou Barbassa. A expectativa da estatal é poder captar um valor entre US$ 5 bilhões a US$ 10 bilhões no mercado financeiro em 2009, nas diferentes fontes alternativas de crédito, disse o executivo da estatal. "Essa situação adversa não deve durar para o resto da vida, assim esperamos."