Título: Cresce inadimplência no campo
Autor: Mônica Scaramuzzo
Fonte: Valor Econômico, 24/02/2005, Agronegócios, p. B10

Bancos que financiam a produção agrícola através do crédito rural já prevêem um "quadro de agravamento da inadimplência" nesta safra por conta da redução da renda do setor provocada pela queda dos preços internacionais dos grãos e pela desvalorização do dólar ante o real. As instituições acompanham atentas os vários pedidos de renegociação de dívidas do setor junto ao governo e prometem mais rigidez na liberação do financiamento para os produtores nos próximos meses por conta do cenário negativo. No Banco do Brasil, principal financiador da safra agrícola do país, o índice de inadimplência deve saltar de 0,3% previstos para a safra 2003/04 para índices entre 2% e 2,5% em 2004/05 - o maior desde 1995/96-, segundo Ricardo Conceição, vice-presidente de Agronegócios do banco. Nas últimas cinco safras, este índice ficou abaixo de 1% no BB, reflexo da maior capitalização do setor agrícola, impulsionada pelos bons preços das commodities e maior eficiência na produção. Essas dívidas referem-se aos financiamentos desembolsados por safra e não computam os valores em aberto renegociados pelo governo nos últimos anos. Segundo Osmar Roncolato Pinho, diretor de produtos de financiamento da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), fatores climáticos, como os observados no Sul do país, por conta da forte seca, terão uma avaliação especial pelos bancos, desde que comprovadas as perdas por meio de laudos e fiscalização. "Os vencimentos de dívidas agrícolas com o BNDES em 2004 por conta do vendaval em Santa Catarina e problemas climáticos no Sul foram renegociados." Conceição diz que o eventual aumento do índice de inadimplência para entre 2% e 2,5% é "administrável". Ele acredita na possibilidade de o governo obter mais recursos para minimizar os impactos negativos do setor. "Já trabalhávamos com um cenário apertado para a safra 2004/05 e, mesmo assim, o banco vai financiar mais". Até o dia 31 de janeiro, o governo liberou para custeio e investimentos R$ 32,5 bilhões, de um total de R$ 46,5 bilhões previstos para o Plano de Safra 2004/05. O Banco do Brasil respondeu por R$ 18,8 bilhões desses desembolsos, de um total de R$ 25,5 bilhões que deverá financiar nesta safra. Segundo Conceição, a diretoria do BB vai rever com o governo os critérios de financiamento para a safra 2005/06 por conta da conjuntura apertada para o setor. O executivo não acredita que os recursos de financiamentos do banco serão reduzidos. "No mínimo, deverão se manter como em 2004/05", disse. Itamar Bernal Machado, superintendente de agronegócios Santander Banespa, também acredita no maior rigor na liberação futura de crédito. Nesta safra, o banco deve financiar quase R$ 3 bilhões para os agronegócios. Para os executivos, o atual momento do setor nem de longe lembra a crise da década de 90, quando o cenário macroeconômico era de instabilidade, taxas de juros pós-fixadas e setor agrícola menos produtivo.