Título: São Caetano do Sul, rica e cara, perde moradores
Autor: Cynthia Malta
Fonte: Valor Econômico, 25/02/2005, Especial, p. A46

Quem chega de São Paulo e passa pela avenida Goiás, a principal via de São Caetano do Sul, nota que não há crianças pedindo esmolas nos semáforos de traços futuristas, equipados com telas que informam quantos segundos faltam para que o sinal vermelho vire verde. As ruas são limpas e pavimentadas. Os dados oficiais informam que todos os moradores da cidade possuem água tratada, esgoto encanado, lixo coletado, luz elétrica e geladeira. E falta muito pouco para que todos tenham TV em cores (99,4%) e telefone fixo (97%). Quase a metade já tem celular e mais de dois terços, automóvel. A renda per capita anual é alta, de US$ 16,5 mil. O analfabetismo é praticamente inexistente - apenas 0,7% da população. São Caetano do Sul, município paulista com meros 15 quilômetros quadrados, é considerado pela Unesco o melhor lugar para se morar no Brasil. Mesmo com todas essas vantagens, ao contrário da maioria das cidades brasileiras, em vez de atrair gente, a população da cidade está encolhendo. Nos anos 90 a redução foi de 0,72%, chegando a 2000 com pouco mais de 140 mil habitantes, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. É verdade que a área geográfica de São Caetano é pequena e não há mais espaço para abrigar grandes levas de gente. Mas por que a cidade perde moradores? São várias as explicações. A população envelheceu e os mais jovens estão mais ricos, têm menos filhos e, muitos deles, saem da cidade em busca de um emprego. Além disso, uma parte dos moradores de menor renda perdeu o emprego com a saída de grandes indústrias da cidade, onde também ficou mais caro morar. Uma das grandes indústrias que foram embora é a tradicional Cerâmica São Caetano - herdou o nome da fazenda de padres beneditinos, que produzia tijolos, lajotas e telhas na região, no século XIX. Foi comprada pelo grupo Magnesita, que levou a produção embora. Na área de 360 mil metros quadrados onde funcionava a fábrica, a Magnesita, a construtora Sobloco e a Aparecido Viana Imóveis planejam erguer um conjunto de casas, prédios residenciais e estabelecimentos comerciais - fora do alcance dos empregados que ficaram sem trabalho. A prefeitura exige que 70% do espaço seja ocupado por comércio e somente 30% por residências. O objetivo é aumentar a receita própria do município, via recolhimento de ISS. A idéia é atrair mais consumidores, mas não necessariamente novos moradores para a cidade. "Precisamos aumentar a receita para manter os serviços que hoje fornecemos à população", diz o engenheiro Julio Marcucci, que há 34 anos trabalha na prefeitura e é, na nova gestão, diretor de obras. "Temos evitado construir moradias populares. Não haveria condições de oferecer serviços para tanta gente", diz o ex-vice-presidente da General Motors, André Beer, que nasceu em Santo André mas mora em São Caetano há 53 anos. Beer saiu de Santo André com 19 anos para trabalhar na GM, que instalou sua fábrica em São Caetano do Sul no final dos anos 20 e que até hoje é a maior empregadora e contribuinte do município. Ele é membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico, órgão da prefeitura, desde 2000, quando saiu da GM depois de ter trabalhado na montadora por 49 anos. A General Motors chegou a ter, há 15 anos, cerca de 13 mil funcionários na cidade. Hoje são 8,48 mil. A maioria mora em São Caetano, mas milhares vêm de fora e contam com transporte da GM. Quando a montadora, com sede nos Estados Unidos, decidiu construir a fábrica em São Caetano do Sul, nos anos 20, foi atraída pela sua proximidade de São Paulo, em especial do bairro do Ipiranga, onde já estavam instalados diversos fabricantes de autopeças. Também pesou o fato de, na parte de trás do terreno, passar a linha do trem que ligava São Paulo a Santos, o que facilitava o recebimento de insumos importados. Hoje o trem é pouco usado pela GM. Os veículos fabricados na cidade e destinados à exportação são transportados por carretas até o porto de Santos. "As pessoas querem vir morar em São Caetano, mas os preços são muito caros", diz Beer. O preço do metro quadrado de terreno é o mais alto da região do ABC, que também inclui os municípios de São Bernardo do Campo, Santo André e Diadema. No trecho central da avenida Goiás, o metro pode chegar a R$ 2 mil. Em áreas mais afastadas, cerca de R$ 350. Aparecido Viana, empresário do setor de imóveis e que há 42 anos atua em São Caetano, lembra que a preocupação da prefeitura com a falta da infra-estrutura necessária para atender à população vem dos anos 60. O prefeito daquela época, Walter Braido, chegou a barrar a construção de prédios altos, de 20 andares, que estava sendo planejada no bairro Cerâmica. O limite ficou em quatro andares. "Ele foi inteligente", diz Viana. De lá para cá a lei de zoneamento tem sido modificada aos poucos pela prefeitura, explica Marcucci. No bairro Santa Maria, por exemplo, já se permite construir prédios residenciais de até oito andares. Mas em outras regiões residenciais o limite é de quatro pavimentos. No centro da cidade, ao longo da avenida Goiás, há edifícios de cerca de 15 andares. Mais altos do que isso são raros, já que a lei determina que se respeite a largura da rua e a distância do prédio em relação à calçada. Na cidade não há favelas. Alguns cortiços, como os do bairro São José, estão sendo reformados com verbas da prefeitura e do setor privado. A construção de moradias populares não deslancha pois o metro quadrado é caro. A prefeitura chegou a construir 120 apartamentos populares e os vendeu à Caixa Econômica Federal. O comprador deveria ganhar até seis salários mínimos. A prestação mensal era de R$ 250,00 e o prazo de pagamento de 15 anos. Apareceram 6 mil candidatos na CEF. A proibição de erguer prédios altos na cidade, diz Viana, tem impedido que mais empresas se instalem na cidade. "Quando a alíquota do ISS foi reduzida no início da década, muitas empresas vieram sondar a cidade. Mas a falta de prédios modernos impediu que elas se instalassem". O plano da nova administração é atrair empresas de alta tecnologia, que não precisem de muito espaço físico para operar. Mas não está prevista a concessão de incentivo fiscal. O caixa da prefeitura é administrado de maneira conservadora. "Desde 1989 não tomamos empréstimo em banco. Só gastamos o que arrecadamos", diz o diretor de Obras. A maior parte das áreas deixadas por indústrias que fecharam as portas ou saíram da cidade vem sendo ocupada pelo comércio varejista. No lugar da metalúrgica Villares funciona hoje uma fábrica de móveis da Casas Bahia. O hipermercado Extra ocupa o espaço deixado pela fabricante alemã de autopeças ZF. E na área onde funcionava a metalúrgica Saad estão hoje o hipermercado francês Carrefour e a loja de material de construção Leroy Merlin, também francesa. Com o desmantelamento da Indústrias Mattarazzo, abriu-se uma área vazia importante. Uma parte foi para a prefeitura, como pagamento de impostos atrasados. Uns 30 mil metros quadrados viraram viadutos, ruas e um parque, que será aberto em março. Ainda sobrou terreno, cuja destinação é incerta. Os planos para expandir o setor de comércio e serviços na cidade incluem a construção de um centro comercial - com 60 mil metros quadrados - em cima da rodoviária. Seriam quatro pavimentos, dois de lojas e dois de estacionamento. Marcucci estima que a circulação diária na área seja de 25 mil pessoas. O investimento previsto é de R$ 60 milhões. A prefeitura pretende licitar o projeto neste ano. O vencedor terá a concessão por 30 anos para explorar o prédio. Estudantes universitários e trabalhadores que viajam de trem e ônibus são o alvo do empreendimento. São Caetano também precisa atender o consumidor das classes A e B, que não encontra muitas opções no varejo local, mas representa quase 60% da população. A cidade carece de um shopping center de grande porte, de lojas de grife, restaurantes mais refinados e amplas salas de cinema. Tudo isto, o consumidor ainda tem que procurar em São Paulo ou Santo André. O morador, em geral, também reclama que paga mais caro em São Caetano por carros e roupas, e que o valor cobrado não condiz com a qualidade ou o charme que o mesmo produto teria se fosse comprado numa loja do bairro dos Jardins, em São Paulo. Uma parte desse grupo de renda mais alta, em geral os mais jovens, acaba, portanto, saindo da cidade. Muda-se para São Paulo, onde há mais oportunidade de emprego. Outro fator que ajuda a explicar por que a população vem encolhendo é o fato de que a maior parte das classes A e B hoje têm menos filhos, no máximo dois. Além disso, mais da metade dos 140 mil moradores são aposentados, de idade mais avançada. (CM)