Título: Proposto o fim de barreiras para produto orgânico
Autor: Mauro Zanatta De Nuremberg (Alemanha)
Fonte: Valor Econômico, 25/02/2005, Agronegócios, p. B15
As negociações entre União Européia e Mercosul e as conversas para destravar os impasses agrícolas na Organização Mundial do Comércio (OMC) podem ganhar algum impulso a partir de uma ousada proposta feita ontem, pelos governos de Brasil e Alemanha, na abertura da feira alemã Biofach 2005: o fim de tarifas e barreiras sobre as exportações de produtos orgânicos em todo o mundo. Em discursos no maior encontro de produtores de alimentos orgânicos do mundo, em Nuremberg, o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, e a ministra alemã da Alimentação e Proteção ao Consumidor, Renate Künast, anunciaram que a proposta será discutida pelo chanceler Gerhard Schröeder durante sua visita ao presidente Lula, em outubro. Furlan quer transformar a ação numa proposta conjunta do G-20, grupo dos maiores países em desenvolvimento. "Pode ser o link que faltava entre o comércio justo e o livre trânsito de mercadorias que buscamos tanto nas relações com a Europa como nas negociações da OMC". Renate Künast, do Partido Verde, aceitou o desafio: "Fizemos cortes na política de subsídio e temos que dar um prêmio aos produtos orgânicos, que nada têm a ver com ideologia, mas com a urgente necessidade de levar o conceitos de ecologia ao comércio", disse. Para levar adiante propostas concretas de negociação, o Comitê de Agronegócio Brasil-Alemanha decidirá em junho as bases de um acordo para abrir o mercado de etanol na Alemanha em troca de tecnologia alemã para o programa de biodiesel do Brasil. Os vice-ministros da Economia e da Alimentação negociarão o tema numa reunião marcada para Fortaleza (CE). Os alemães usam o metanol na mistura com o diesel, mas isso ainda gera partículas poluentes. "Eles precisam cumprir as regras de Kyoto e nós podemos ajudar", disse o secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Mário Mugnaini. A distribuição do produto na Alemanha seria feito pela cooperativa Raiffensen, que detém postos de combustíveis. A produção local de etanol começa a migrar para o trigo - hoje, é feito a partir da beterraba. "Mas isso tem, e ainda terá, um alto custo e só sobreviverá graças ao subsídios", disse ao Valor o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Ele quer transformar os biocombustíveis numa vitrine. Literalmente. Os alemães gostaram da idéia de adaptar todos os ônibus que serão usados pelas seleções durante a Copa do Mundo de 2006, que ocorrerá na Alemanha. Além disso, pode haver um acordo para adaptar as frotas municipais de duas cidades (Fortaleza e Dortmund) para uso exclusivo de etanol e biodiesel. "Podemos medir a emissão de poluentes e provar sua eficácia na prática", afirmou Mugnaini, que é o coordenador do comitê. O governo alemão resiste em adotar o etanol por uma questão fiscal. Apenas os combustíveis fósseis sofrem tributação. Além disso, há uma cota pré-acertada com a UE para a exportação de até 2 bilhões de litros de etanol por ano. Rodrigues informou que assinou um memorando de entendimentos com o governo alemão para financiar parte da produção de biodiesel de mamona de pequenos produtores do Nordeste brasileiro. Os recursos, da federação dos industriais (BDI) e da agência local de cooperação internacional (GTZ), poderiam somar até R$ 5 milhões. O projeto também deve beneficiar a reconversão de áreas de cana-de-açúcar no Nordeste. O repórter viajou a convite da Apex