Título: Crise da GM preocupa prefeituras no Brasil
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 05/12/2008, Especial, p. A14
Já faz algum tempo que o temor de a General Motors ir à falência nos Estados Unidos bateu à porta dos executivos da própria companhia e dos sindicatos de trabalhadores no Brasil. Mas agora a preocupação começa a causar inquietação também nos gabinetes das prefeituras dos municípios que abrigam as operações industriais da montadora, em São Paulo e no Rio Grande do Sul.
Em São Caetano do Sul e São José dos Campos, no Estado de São Paulo, e em Gravataí, no Rio Grande do Sul, onde estão as três maiores fábricas da companhia, a GM é não apenas um ícone como também uma das empresas que mais produzem, empregam e arrecadam. Por isso, o principal foco de preocupações de administradores e pesquisadores, no caso de uma bancarrota, é com as finanças públicas.
Ninguém consegue imaginar o que seria desses municípios sem o fôlego da General Motors. Em São Caetano do Sul, cidade que a acolheu em 1930, a GM ocupa 3,3% do território e representa 8,5% de toda a arrecadação do município. Sozinha, a GM responde, ainda, por 30% do retorno do ICMS à cidade.
Em Gravataí, onde se instalou há apenas oito anos, a empresa garantirá 15% do retorno do ICMS recebido pelo município neste ano e 5,2% do orçamento global.
O clima nesses municípios hoje é envolvido por uma grande dose de ceticismo em relação à falência. A maioria duvida que a empresa terá mesmo que fechar as portas ou que uma eventual concordata ou falência tenham reflexos diretos na filial do Brasil, que representa a segunda maior operação da GM, depois da matriz, nos EUA, e da China.
No fundo, todos torcem para que o Congresso americano ceda aos pedidos da montadora e libere a ajuda financeira capaz de estabilizar o caixa da companhia, que míngua a cada dia que passa.
Os governantes municipais têm recebido da direção da montadora garantias de que a operação brasileira não sofrerá com a crise nos Estados Unidos. O prefeito de Gravataí, Sérgio Stasinski (PT), diz que recentemente conversou com a direção da fábrica, mas não recebeu detalhes sobre a dimensão do problema.
Nos últimos dias, executivos da companhia visitaram prefeitos e secretários municipais com a missão de garantir que também os investimentos em curso não correm perigo.
Isso valeria para os US$ 250 milhões destinados às obras de construção de uma nova fábrica de motores, em Joinville (SC), e também para o plano de investimento de US$ 500 milhões para o desenvolvimento de dois novos carros a serem produzidos na fábrica de São José dos Campos (SP).
Como se não bastasse a perturbação com as finanças da companhia na matriz, sindicatos e governantes se preocupam agora também com a ociosidade dos trabalhadores da GM, que, assim como nas demais montadoras, foram dispensados do trabalho por meio de férias coletivas ou licenças remuneradas porque a demanda está muito abaixo da oferta.
A crise no crédito, motivo dessas folgas, preocupa ainda mais os governantes do que a possibilidade de a multinacional entrar em concordata. "Estamos confiantes que o efeito (da queda de vendas de carros) no município seja o menor possível para retomarmos o grau de desenvolvimento", diz o secretário de desenvolvimento econômico São José dos Campos, Toshihiro Yosida.
O consumidor também está atento às notícias sobre a angústia que a GM vive nos EUA, apesar de esse não ser um motivo para fazê-lo trocar de marca, segundo o depoimento de alguns.
Apesar do clima de preocupação, sob a ótica da manufatura enxuta - meio de sobrevivência da indústria automobilística em todo o planeta hoje -, a filial brasileira fez a lição de casa melhor do que a matriz na visão de José Roberto Ferro, especialista no assunto. Para ele, porém, antes de socorrer o caixa, a GM tem ainda muito a aprender com a Toyota.