Título: Indústria descarta novas concessões
Autor: Landim , Raquel
Fonte: Valor Econômico, 08/12/2008, Brasil, p. A3

Se os países ricos pressionarem por acordos setoriais, estarão reabrindo toda a negociação da Rodada Doha, na Organização Mundial de Comércio, alerta a indústria brasileira. "Insistir nesse tema é quebrar o equilíbrio entre agricultura e indústria e reiniciar toda a barganha", disse Mário Marconini, diretor de relações internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Os países ricos estão pressionando por negociações que eliminem ou reduzam bastante as tarifas de importação em setores sensíveis como químico, automotivo e eletroeletrônico. Para o representante da indústria paulista, o Brasil não insistiu em vantagens significativas em agricultura e, portanto, não pode aceitar mais concessões nos acordos setoriais.

Marconini disse que a Fiesp vai conversar com o Itamaraty e reafirmar sua discordância sobre o assunto. Ele ressaltou que a indústria já disse "um milhão de vezes" que não tem interesse. "Ao invés de focar nos pontos que travam as negociações, como a intransigência da Índia em salvaguardas agrícolas, estão insistindo em algo que já estava resolvido", disse Marconini.

Segundo o diretor da Fiesp, a indústria pode sentar na mesa de negociação dos acordos setoriais, mas sem se comprometer com resultados. No texto divulgado no sábado, o mediador da negociação de produtos não-agrícolas, Luzius Wasescha, disse que não está claro como definir um maior comprometimento dos países com os setoriais sem alterar o caráter não-mandatório dessas negociações.

Marconini também ressaltou que o novo texto industrial abriu a possibilidade de condicionalidades específicas para Argentina e Venezuela ao trazer os nomes desses países entre colchetes. Na linguagem diplomática, disse o executivo, significa que os demais membros começam a aceitar que esses países necessitam de um tratamento diferenciado.

Representantes do setor privado brasileiro avaliam que a divulgação dos textos no último sábado é uma demonstração de que os países estão mais comprometidos em seguir com a Rodada Doha, mas ainda não é uma garantia de que as negociações possam realmente ser concluídas.

Para o diretor-executivo do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), "think-tank" brasileiro financiado por entidades agrícolas, André Nassar, os novos textos podem ser considerados um avanço, porque consolidam pontos que foram discutidos nos últimos seis meses. "Existe uma vontade política para fechar o acordo, porque os países venderiam isso como uma medida para mitigar a crise global", disse.

O novo texto agrícola prevê a criação de cotas para novos produtos, o que é considerado ruim para o Brasil, mas pode até ser aceitável, dependendo do que ocorrer com o etanol. Para a agricultura brasileira, a principal discussão é mesmo a salvaguarda especial para países em desenvolvimento, tema que não foi concluído no nível técnico e será decidido pelos ministros.