Título: Disputa pelo PMDB em 2010 move eleição das Mesas
Autor: Costa , Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 08/12/2008, Política, p. A7
Antecipada pelo lançamento prematuro da candidatura do senador Tião Viana (PT-AC), a disputa pelas presidências da Câmara e do Senado ameaça a estabilidade da base governista no Congresso, no último quarto de governo do PT, e já leva os partidos a se movimentar em função da eleição presidencial de 2010. Alan Marques / Folha Imagem - 18/11/2008
Temer: apoio do PSDB a Tião Viana (PT) no Senado, facilitando a eleição do deputado pemedebista na Câmara, acendeu o sinal de alerta no governo
Para a oposição, especialmente o PSDB, o cargo mais estratégico, para quem pensa em 2010, é o de presidente da Câmara. Por isso os tucanos reservadamente admitem apoiar um nome do PT no Senado, no caso, o do senador Tião Viana (AC), se isso ajudar na eleição do presidente do PMDB, Michel Temer, na Câmara.
Apesar de dizer que o acordo para eleger Temer não tem vinculação com a eleição do Senado, na prática o PT (e o governo) pode articular uma alternativa, se avaliar que o deputado paulista não é um aliado confiável ou que o comando das duas Casas, pelo PMDB , representa algum tipo de ameaça. Ou seja, ajudando Tião no Senado, o PSDB estaria ajudando Temer na Câmara.
Temer, até o início do segundo mandado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teve uma relação difícil com o Planalto. O deputado é de São Paulo e apoiou José Serra a presidente, em 2002. Mas se compôs com Lula ao fazer o acordo que deu ao PT a presidência da Câmara e ao PMDB, cinco ministérios.
Os dois lados têm dúvidas sobre onde estará Temer em 2010, mas os tucanos argumentam que o apoio do PSDB a sua candidatura não se dá com o compromisso de contrapartida na eleição presidencial - numa Casa onde a oposição é mais frágil em relação à bancada governista, ter um presidente neutro já seria um grande negócio. A situação no Senado é outra.
Bem ou mal PSDB e PFL conseguem fazer uma oposição mais efetiva no Senado, independente de quem esteja na presidência da Mesa. Formalmente, os tucanos vão apoiar o candidato da maior bancada, no caso, o PMDB, com 20 senadores. Se os pemedebistas fizerem acordo para ceder a vez a Tião Viana, como fizeram há dois anos na Câmara, o partido não terá dificuldades para votar no candidato petista.
No jogo de intrigas em que se transformaram as duas eleições, o governador de São Paulo, José Serra, tem aparecido como um grande cabo-eleitoral de Viana. Nem tanto. O que há é o entendimento do PSDB que a eleição de Viana ajuda Temer na Câmara. Além disso, Serra sempre manteve boas relações com os irmãos Viana - o outro é Jorge, ex-governador do Acre.
No governo do tucano Fernando Henrique Cardoso o governador Jorge Viana e o presidente sustentaram uma relação bem distante do tom belicoso que PT e PSDB manifestavam no Congresso. Senador e médico, Viana mantinha interlocução permanente com o então ministro da Saúde José Serra.
A antecipação das negociações e articulações para a eleição do Senado e da Câmara é que levou PMDB e PT a reunirem suas bancadas, semana passada, para declarar, os pemedebistas, que terão candidato próprio ao Senado - o que eles sempre disseram -, e os petistas, que mantêm o acordo para eleger Temer.
O sujeito oculto da declaração petista é que o partido espera reciprocidade, embora ela não esteja escrita no acordo, e quer o apoio do PMDB a Tião no Senado. Entre os pemedebistas a situação é bem mais complicada. Parte da bancada é favorável a um entendimento com o PT e gostaria de deixar a decisão para janeiro. O líder do governo Romero Jucá (RR), por exemplo.
Uma outra parte, na qual se inclui o senador Renan Calheiros, já avisou o Planalto que disputa a eleição nem que seja para perder, e que considera uma "traição" do parceiro (o PT) tentar avançar sobre um posto que é tradicionalmente ocupado por um pemedebista, desde a redemocratização. Com a decisão de anunciar que terá candidato, o PMDB enquadra a movimentação dos senadores empenhados na negociação com Viana, manda um recado para os outros partidos que já negociavam com o petista e prolonga a possibilidade da candidatura José Sarney.