Título: Sem o peso da dívida, Usiminas quer crescer
Autor: Ivo Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 28/02/2005, Empresas &, p. B5
Uma dívida enorme, que deixou a Usiminas quase imobilizada nos últimos anos, não é mais vista como um problema no alto comando da siderúrgica mineira. "Superamos essa questão", disse taxativo Rinaldo Campos Soares, na sexta-feira, sentado com ar tranqüilo em sua sala à frente de uma cesta de pães-de-queijo quentinhos, bem ao estilo mineiro. Poucas horas antes ele havia divulgado ao mercado o balanço da empresa de 2004 com um resultado operacional superior a R$ 5,6 bilhões e lucro líquido de R$ 3,02 bilhões. "Com a forte geração de caixa do sistema Usiminas, cortamos mais de US$ 600 milhões do endividamento", informou Soares, que já fixou como meta baixar pelo menos mais metade desse valor em 2005. Mas essa não é mais sua preocupação número 1. A relação dívida líquida sobre a geração de caixa fechou o ano em 0,6% no balanço consolidado do grupo. O número da Usiminas foi 0,1% e o da controlada Cosipa, que chegou a 9,4 em 2002, fechou dezembro em 1,6. Segundo Soares, os balanços de todas as empresas do grupo fecharam o ano saudáveis. A siderúrgica paulista, durante algum tempo vista no mercado como uma espécie de peso-morto da Usiminas, lucrou R$ 900 milhões em 2004 - e faz quase metade do aço produzido pelo grupo. Para o executivo, é hora de colher os frutos da estratégia aplicada a partir de 1996 e retomar a linha do crescimento. "Muita gente esquece que desde sua privatização, em outubro de 1991, a Usiminas formatou um grupo 12 empresas produtivas que em 2004 teve receita líquida de R$ 12, 2 bilhões e emprega mais de 38 mil pessoas", desabafou Soares. Na consolidação desse grupo, informa, a partir de 1997 aplicou US$ 3,3 bilhões. "Coisas que a CST está fazendo agora e a CSN fez recentemente, já fizemos lá atrás", disse. O executivo, que comanda a siderúrgica desde 1990, diz que a Usiminas está pronta para novo ciclo de investimentos e preparada para um movimento de consolidação da siderurgia no país, por meio de aquisições ou de uma fusão, se houver oportunidades. Soares é um árduo defensor da criação de um grupo nacional forte na produção de aços planos - material empregado na carroceria de automóveis, geladeiras, botijões de gás, autopeças, tubos, entre outros bens. "A Arcelor veio para o Brasil e já se firmou como um grande grupo estrangeiro e criou o seu espaço; o grupo Gerdau tem sua estratégia montada, firme e de expansão em aços longos no país e resto das Américas; ficamos nós e CSN", observou. Sua posição é publicamente conhecida, inclusive nos mais altos escalões do governo - da presidência do BNDES aos gabinetes do Palácio do Planalto, em Brasília. Para ele, o que faz mais sentido no país hoje, ante o movimento de formação de gigantes - casos de Mittal Steel (70 milhões de toneladas) e Arcelor (50 milhões) - é a união de Usiminas e CSN. Mas ressalta que não há nada em negociação nesse sentido e que com a saída da Carlos Lessa do BNDES esse assunto não foi adiante no banco. No Brasil, a Arcelor já domina a Siderúrgica de Tubarão (CST), a Belgo-Mineira e em breve a Acesita e já tem forte presença (que pode ampliar) na cadeia de aços planos, competindo com Usiminas e CSN. Nesse momento, a Usiminas trabalha em duas frentes: dar partida ao programa de investimento de US$ 615 milhões, já aprovado pelo conselho de administração, e concluir até setembro os estudos para o projeto de expansão da Usiminas, que vão avaliar acréscimo de até 2 milhões de toneladas na usina de Ipatinga, com olho na ampliação da demanda do país a partir de 2009. "A linha da demanda e oferta irá se cruzar por essa época; pode faltar aço plano laminado no país." O projeto, que pode custar US$ 800 milhões, dependendo da configuração, vai priorizar maior oferta de chapas laminadas a quente e chapas grossas. Este último produto, usado para fabricar navios e plataformas, somente Usiminas e Cosipa são fabricantes no Brasil, com capacidade de quase 2 milhões de toneladas. A demanda anual de aço no Brasil cresce em média o dobro do PIB, que deverá ficar em 4% este ano. O consumo interno, que foi superior a 18 milhões de toneladas em 2004, tem previsão de chegar a 22 milhões antes do fim da década. O investimento já aprovado é para construção de uma nova coqueria (instalação que transforma carvão em coque, produto que ficou muito caro para importar), de uma termelétrica para geração de energia com gases da usina e nova máquina de aço mais nobre para setor automotivo na Cosipa. No ano passado, o grupo Usiminas exportou 28% de tudo que vendeu - as exportações caíram 4% em relação a 2003 por conta do aquecimento da mercado doméstico, puxado por automóveis, tubos, indústria naval. "Este ano, estamos operando à plena capacidade, de 9 milhões de toneladas e prevemos exportar 25% no grupo, que inclui placas da Cosipa." O resultado da empresa foi beneficiado por um mix melhor de produtos (galvanizados, laminados a frio e aços para gasodutos), crescimento de 4% nas vendas e aumento médio (mercados interno e externo) de 35,3%. No país, a alta média foi de 27,3% e na exportação de 58,4%. "Pela primeira vez, o preço no mercado externo, às vezes até 30% inferior por ser mais commodity, igualou-se ao doméstico." Em 2005, com minério e carvão mais caros, Soares diz que terá de buscar ganhos de produtividade e cortes nos custo, como usar coque de petróleo. E negociar caso-a-caso com os clientes para minimizar o impacto desses custos. Ele nega repasse imediato aos preços do aço.