Título: Chinesas pedem 82% de queda no preço
Autor: Durão, Vera Saavedra
Fonte: Valor Econômico, 09/12/2008, Empresas, p. B9

As siderúrgicas chinesas já sinalizaram que vão atuar com trunfos pesados na negociação de preço do minério com as mineradoras para fixar o reajuste de 2009. Além de defender a antecipação da vigência do reajuste do minério para lº de janeiro, a Associação Chinesa de Ferro e Aço (CISA, na sigla em inglês) disse através de Shan Shangua, secretário geral da entidade, que pretende pedir a Rio Tinto e suas concorrentes Vale e BHPBilliton para aceitarem reduzir em 82% os preços da matéria-prima depois que as cotações do aço despencaram para níveis de 1994. Naquele ano, a cotação do minério de ferro estava no patamar de US$ 16, ante os atuais US$ 80 da Vale e US$ 92 das australianas.

Rodrigo Ferraz, chefe de análise da Brascan Corretora, diz que a queda de 82% no preço do minério não emplaca. "Os chineses têm um poder gigantesco, pois são os maiores consumidores de minério do mundo, mas a US$ 16 por tonelada tira a Vale do mercado, quebra todo mundo". Para o analista, as mineradoras vão ter que aceitar um valor mais baixo para o minério, se não elas não vão conseguir operar por causa da forte retração da demanda. Mas, a proposta da CISA tem por objetivo chegar a um corte de 40% no preço. "Se formos levar em conta a diferença entre o preço do minério contratado da Vale e o preço no 'spot' na China (US$ 60 a tonelada) dá uns 25% de queda no máximo. Este parâmetro seria o reajuste negativo".

O que as usinas chinesas querem é criar um ambiente de pressão em que as mineradoras terão que barganhar a antecipação do novo preço do minério com o percentual de queda do insumo. Elas temem continuar pagando os altos custos do minério, seu principal insumo, num cenário de queda de preço do aço acima de 50%, como é o caso das bobinas a quente. Certamente, Vale, Rio Tinto e BHPBilliton já estão sendo consultadas sobre isso em rodadas informais de conversas preliminares entre os dois lados que antecedem as negociações de preço, que só vão começar no início do ano. Nesse confronto, as mineradoras, mesmo levando em conta que as siderúrgicas estão com força para pressionar, vão indagar em que bases de reajuste antecipa a vigência do preço, que vigora há tempos em 1º de abril.

"Será uma difícil negociação de preços, uma vez que as mineradoras e as siderúrgicas estão divididas quanto às perspectivas do mercado", disse Helen Lau, analista da Daiwa Securities Group, de Xangai. "Mas, os preços do minério de ferro são determinados pela demanda, e não pelos preços do aço. O comentário da associação é uma tática de negociação".

Em relatório divulgado ontem, o banco Merrill Lynch revisou sua previsão de queda do minério de ferro para 20% e do carvão para 59% em 2009. Em "road-show" com investidores da Europa e dos Estados Unidos, os analistas do banco concluíram que o consenso do lado das usinas de aço é de uma queda do preço dos principais insumos do aço entre 30% e 40% para o minério de ferro e 50% para o carvão/coque. A queda das duas matérias primas vai baixar os custos básicos da indústria siderúrgica.

O banco americano prevê que as siderúrgicas brasileiras reduzam os preços domésticos do aço no primeiro semestre de 2009 por conta de queda da demanda doméstica influenciada pela retração da indústria automobilística, e também redução do volume de vendas externas de produtos siderúrgicos. No relatório, o Merrill Lynch calcula que a quantidade de vendas da CSN e da Usiminas pode cair 7%, principalmente nas exportações, e da Gerdau 14% por causa de sua exposição ao setor automobilístico dos EUA (aços especiais).

A Vale voltou ontem a comunicar novas paradas de produção em suas usinas de pelotização. Dessa vez, foram suspensas as operações em mais duas unidades instaladas no porto de Tubarão, no Espírito Santo. Das sete pelotizadoras locais, agora são quatro paradas. Em novembro, a mineradora já havia informado que a Hispanobras e a Itabrasco pararam para manutenção. Somadas às duas unidades de pelotização da Samarco, onde a Vale tem 50% na sociedade com a BHP, já são 29,3 milhões de toneladas de pelotas que a mineradora deixou de produzir desde 5 de novembro. Os trabalhadores das pelotizadoras entraram em férias coletivas, integrando o contingente dos 5.500 funcionários da empresa nesta situação.