Título: Crise vai frear um longo ciclo de investimento
Autor: Bouças , Cibelle
Fonte: Valor Econômico, 10/12/2008, Brasil, p. A4

O agravamento da crise financeira internacional vai frear um dos ciclos mais longos de crescimento dos investimentos no país. A taxa de expansão dos investimentos, indicada no Produto Interno Bruto (PIB) como formação bruta de capital fixo, cresceu por 19 trimestres consecutivos, tendo alcançado no terceiro trimestre deste ano crescimento de 19,7% em comparação com igual intervalo de 2007, e de 6,7% em comparação com o segundo trimestre, com ajuste sazonal. No último trimestre do ano, estimam economistas, a taxa de crescimento deve alcançar no máximo 9% em relação ao mesmo período do ano passado - uma variação de um dígito não ocorre há seis trimestres. Para 2009, as perspectivas são de variação menor, entre 3% e 4%.

A taxa de 19,7% é a maior variação dentro da nova série histórica elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com início em 1996. Tal expansão permitiu que a formação bruta de capital fixo passasse a representar 20,4% do PIB - também a maior da nova série, mas inferior à taxa de 20,8% alcançada no terceiro trimestre de 2006, pela série antiga. A forte expansão do investimento foi crucial para que o PIB mantivesse uma taxa média de crescimento de 1,7% neste ano, sempre comparando um trimestre com o trimestre anterior, feito o ajuste sazonal.

Cálculos feitos pela LCA Consultores revelam que o investimento respondeu por 40% da expansão de 9,4% da demanda interna observada no terceiro trimestre. E excluindo esse elemento do PIB, o crescimento da economia brasileira trimestre a trimestre teria apresentado desaceleração já no segundo trimestre, com crescimento inferior a 1% . "A inflexão na curva do investimento ocorreu em setembro. Após a quebra do Lehman Brothers, tudo mudou. A conjuntura mudou drasticamente de um mês para o outro", afirmou o economista-chefe da LCA, Bráulio Borges.

Os fatores que permitiram a aceleração do investimento no terceiro trimestre - aumento do consumo aparente de máquinas e equipamentos (20,3%) e de insumos típicos da construção civil (13,8%), o crescimento nominal no saldo de operações de crédito do setor financeiro com recursos livres para pessoas jurídicas (42,1%) e das operações de crédito do BNDES (23,1%) - são os mesmos que apresentaram forte desaceleração a partir de outubro, acrescentou o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.

"A produção de máquinas e equipamentos e novas encomendas estão paradas. Haverá uma volta sensível para patamares abaixo de dois dígitos, o que não se via desde o segundo trimestre de 2007", observou. Vale estima para o quarto trimestre expansão do investimento de 6,6%, em função de projetos já em andamento. Para 2009, Vale prevê uma taxa de 2,5%, ante projeção de 14,5% para 2008. A LCA estima para o quarto trimestre crescimento entre 7% e 8% na formação bruta de capital fixo, e de 3% em 2009, ante 15% em 2008.

Para a economista da MCM Consultores Associados, Lygia César, a postergação de projetos na área de construção civil somada à queda na produção de bens duráveis (sobretudo veículos) a partir de outubro serão responsáveis pelo início do processo de desaceleração dos investimentos. Ela, no entanto, acredita que a taxa do quarto trimestre ainda pode apresentar uma variação acima de 10%. "Mas em 2009 a freada será mais brusca. O crescimento hoje está em 15% no ano vai para 4%", estima. A economista da Rosenberg & Associados, Thaís Marzola Zara, também afirmou que a taxa de investimento pode seguir elevada no quarto trimestre por conta de projetos já em andamento. A consultoria não divulgou projeção para 2009.

O economista-chefe da Convenção Corretora, Fernando Montero, não tem projeção fechada para a formação bruta de capital fixo no quarto trimestre e em 2009. Mas salientou que o desempenho dos investimentos vai depender muito da evolução dos estoques. "As indústrias têm uma boa parte do seu capital de giro imobilizado em estoques e as diferenças entre os dados de vendas e de produção levam a crer que elas estão desovando parte desses estoques em novembro e dezembro", ponderou. Se houver uma redução do nível de estoques no quarto trimestre, há mais chances de uma retomada dos investimentos no primeiro semestre, avalia.

Para o ano de 2009, os economistas concordam que ainda é difícil avaliar o impacto da crise sobre o desempenho do PIB brasileiro. As previsões para o quarto trimestre de PIB estão variando desde uma queda de 1% a um crescimento de 0,6% sobre o terceiro trimestre, com um carregamento estatístico (carry over) entre 0,6% e 1,7% para o crescimento da economia no próximo ano, que pode chegar a 2,9%, conforme as projeções. Não está descartada a possibilidade de uma recessão técnica (dois trimestres consecutivos de queda no PIB).