Título: Governo erra na crise e favorece oposição
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 15/12/2008, Política, p. A6
O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos assistiu inconformado ao anúncio das novas medidas anticíclicas do governo. Diz que o governo federal bonifica a estagnação dos setores produtivo e financeiro. Diz que os governadores José Serra e Aécio Neves estão tomando medidas mais criativas no enfrentamento da crise que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nesta entrevista ao Valor, disse não ter dúvidas de que, sem mudanças, a sucessão presidencial lhe escapará das mãos. Leo Pinheiro/Valor
Wanderley Guilherme: "Se estivéssemos no limiar de quebradeiras sairia mais barato aumentar o valor e o prazo do seguro desemprego"
Valor: Como o sr. avalia a resposta do governo brasileiro à crise?
Wanderley Guilherme dos Santos: Não sou economista, mas tenho bom senso. E até onde eu saiba não está havendo quebradeira no Brasil. O que está havendo é suspensão e corte de investimento por parte das empresas. Ao que parece não é um problema de recursos, porque o sistema financeiro nacional tem recursos. Talvez não tenha o suficiente para substituir inteiramente o que era financiado do exterior. É mais que desencontro entre a possibilidade de emprestar dos bancos e a de tomar empréstimos das empresas. É uma paralisia de ambos os lados.
Valor: A que atribui o sr. atribui esta paralisia?
Wanderley Guilherme O aumento da incerteza foi substancial e como são muito volumosos os recursos em jogo é compreensível que exista temor e cautela. O que acredito é que há alternativa a bonificar a estagnação. Tanto do sistema financeiro quanto do produtivo com medidas como a suspensão do IOF, a redução depósito compulsório, e linha de capital de giro do BNDES. O ministro da Fazenda disse que o governo tem bala na agulha e várias medidas que pode oferecer se as já aplicadas não forem suficientes. Se eu fosse empresário recebendo bônus não me moveria, esperaria mais. Não estou de acordo que o governo exercite renúncia fiscal por conta de uma redistribuição em favor de que recebem mais, não estou de acordo que governo mobilize recursos do fundo soberano.
Valor: O sr. acha então que o governo está fazendo uso equivocado das reservas?
Wanderley Guilherme: Absolutamente errado. São recursos da população brasileira como um todo. O que regula a distribuição de renda dentro do país e o mercado do fundo soberano tem a ver com a soberania do povo em relação aos detentores do poder. O fundo e as reservas têm de ser empregados em rendimentos que tragam retorno para a população como um todo. Se o problema é de poder de compra que estaria atrapalhando o crescimento o governo faria melhor em estender o prazo e aumentar o valor do seguro desemprego.
Valor: E o que poderia ser feito de diferente?
Wanderley Guilherme: Faria com que essa inação ficasse mais cara. Não reduziria o compulsório. Os bancos usaram esta política de reduzir compulsório para empoçar liquidez comprando títulos da dívida pública ao invés de aumentar a oferta de crédito a juros razoáveis. A Alemanha está reduzindo o compulsório dos bancos mas não está dando bônus. Hoje (sexta-feira) o Congresso americano negou a ajuda de bilhões de dólares às automobilísticas.
Valor: E deve se deixar falir?
Wanderley Guilherme: Ainda não estamos no limiar de quebradeiras e falências O sistema financeiro brasileiro tem recursos abundantes. Hoje se trata de penalizar a estagnação. Se estivéssemos nesse limiar de quebradeiras, como nos EUA, estaria a favor de deixar quebrar deste que acompanhado por uma política social de fortalecer o seguro desemprego. Esta medida é muito mais barata. A Alemanha está seguindo este caminho.
Valor: Porque dá tanta ênfase ao seguro desemprego?
Wanderley Guilherme: O governo deveria garantir o poder de compra da população, garantir que ela poderá continuar se endividando. A taxa de inadimplência não aumentou nos últimos seis anos. As famílias endividam-se no limite do que podem pagar. O Estado tem fazer alguma coisa na área social. Não estou de acordo com corte fiscal em favor de segmentos que têm recursos. Isto reduz a possibilidade de o Estado continuar investindo em infra-estrutura e prejudica o contribuinte.
Valor: Mas dá bônus não é concedido para evitar o desemprego?
Wanderley Guilherme: A melhor forma de evitar o desemprego é crescer. Portanto as empresas têm que investir e o sistema financeiro privado deve financiar os investimentos. Não existe outra forma no mundo de manter salários. Em segundo lugar, quando acontecer um desastre como falência e desemprego o governo pode fazer o que se negou até agora: estender prazo seguro desemprego e aumentar o seu valor mantendo o poder de compra da população e mantendo o investimento públicos na infra-estrutura.
Valor: As empresas já não estão punidas pelo juro alto?
Wanderley Guilherme: A política de juros está errada. No momento em que de um lado o governo oferece bônus para quem adota o status quo, o BC mantém taxa de juro nas alturas e pune todo mundo. A Selic é um desestímulo que se mantém. Reduzir taxa de juro, já que a palavra inflação não existe mais neste contexto, seria um estímulo mais efetivo que abrir linha de crédito de capital de giro no BNDES. Para que isto se temos um sistema financeiro está saudável?
Valor: Que consequências políticas esta condução pode ter?
Wanderley Guilherme: Se houver uma interrupção nesta nova retomada do crescimento por conta de uma política interna equivocada vamos ter desemprego e deterioração da situação econômica, favorecendo a oposição, sem dúvida nenhuma. Com bônus não vamos sair do imobilismo. Ambos os protocandidatos da oposição estão fazendo diferente na política interna de seus Estados. Aécio Neves e principalmente José Serra, em São Paulo, estão fazendo o que deve ser feito: estimular a produção sem dar bônus. As licitações no setor de transportes são um exemplo destas iniciativas do governo de São Paulo. A venda Nossa Caixa para o governo federal acumulando recursos para o programa de investimento também.