Título: Posição cambial do BC no futuro muda com crise
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Fonte: Valor Econômico, 10/12/2008, Finanças, p. C1

A posição passiva em dólares do Banco Central no mercado futuro chegou a US$ 11,745 bilhões anteontem, em função das fortes vendas de "swaps" cambiais feitas pela autoridade monetária desde setembro para combater os efeitos da crise financeira internacional sobre o país.

Os dados da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) mostram uma mudança importante na posição cambial do BC, que em fins de setembro tinha uma posição ativa em moeda estrangeira de US$ 22,417 bilhões. Embora o BC tenha desacelerado a venda de "swaps" cambiais em dezembro, a sua crescente posição passiva tem sido apontada por alguns analistas econômicos como uma fonte a mais de pressão sobre a cotação do dólar.

Analistas argumentam que essa situação incentiva os investidores a pressionarem a taxa de câmbio para forçar maior desvalorização do real. A posição passiva em dólares significa que o BC é obrigado a pagar ajustes aos investidores quando ocorrem desvalorizações cambiais, como a observada na semana passada.

O BC intensificou a venda de dólares no mercado futuro para socorrer empresas que, antes da crise, haviam assumido posições passivas em moeda estrangeira. Buscando encerrar as posições passivas, essas empresas começaram a comprar dólares no mercado futuro, pressionando a cotação da moeda americana.

Existe uma outra corrente de analistas, porém, que afirma que a posição do BC no mercado futuro é pequena demais para justificar movimentos especulativos de investidores.

Um dos termômetros usados pelo mercado é a relação entre a posição passiva do BC nos "swaps" cambiais e o volume de reservas internacionais. Anteontem, os "swaps" representavam 5,7% das reservas internacionais, enquanto que, em dezembro de 2002, essa relação foi de 82%.

A relação entre "swaps" e as reservas é um indicador importante porque é um termômetro do poder de fogo dos especuladores diante da munição do BC para combater movimentos especulativos. A posição comprada do mercado em "swaps" mede, em tese, o interesse de investidores em produzir uma desvalorização artificial da moeda. O volume de reservas internacionais é um indicador do poder de fogo do BC para desfazer movimentos especulativos com a taxa de câmbio.

Hoje, o mercado de câmbio é grande e a conta de capitais, aberta, o que torna mais difícil para investidores provocarem desvalorizações permanentes da taxa de câmbio. Nem o BC, com US$ 207 bilhões em reservas internacionais, é capaz de produzir valorizações e desvalorizações permanentes no câmbio. "É virtualmente impossível até para o BC definir o câmbio contra os fundamentos econômicos", afirma o economista Roberto Padovani, do Banco WestLB.

Mas, em tese, é possível investidores provocarem movimentos artificiais na taxa de câmbio em curto período de tempo, sobretudo quando o mercado tem pouca liquidez, o que tem sido frequente na atual crise internacional, e a cotação do dólar é definida com poucos negócios. A política do BC, porém, é atuar para evitar distorções na formação de preços. Assim, em tese, reservas internacionais elevadas seriam um fator que desestimula investidores ativos em dólar a tentar manipular o câmbio.